WhatsApp Image 2019-08-26 at 10.11_edite
Um

Ela precisa de um nome. Antes que pensem que ela sou eu. Hão de me julgar, torturar, matar. Eleanor parece um bom nome e o que vou contar também é bom. Se souberem entender. Deixava-se rasgar à toa, tudo era ópera. Ela queria quebrar o cofre pra ver o que tinha dentro, chegava ao fim das ilusões vãs rapidamente, queria nascer de novo todo dia. Aquele podia ser apenas mais um recomeço mas o mundo que ela imaginara não existia mais, havia sido uma suposição viver como ela mesma já que ela mesma não era ninguém. Primeiro fora seu próprio algoz, depois, sua maior inspiração e agora estava fraca, nem sabia por onde sair, mas deixaria a porta aberta para saberem que foi embora. Um minuto, precisava de um minuto senão tudo podia ruir; ela podia mentir sobre isso se você preferisse mas estava aos pedaços, se sentia só e daqui a pouco estaria velha e feia. E mais sozinha ainda. É difícil ser mulher, pensou Eleanor, eu abro mão, desisto de ser quem não sou, me rendo a minha insignificância, é preciso encarar o que se é sem ter medo. Ela não tinha medo e não esperava aplausos, sabia se virar como ninguém, para isso bastava um café ou dois. E não digam que não avisei, eu tentei, pensei, eu quis, mas fui desencorajada por todos. O confronto viera do óbvio, era óbvio que tinha tudo, até mais do que precisava. Vai se catar mulher! Derrama em mim só o que você tem de bom, só a beleza, o resto esconde, é feio demais. Tanta frustração. Diziam sobre ela que era o inferno com suas reclamações. É que eu não sei fazer mais nada. Não sei. Nada de bom vem de mim. Deus, faça-me insone, quem sabe assim eu consiga existir. Tenho tantos planos. Elaborou uma saída de emergência. As pessoas que a amavam a amavam tanto, elas a adoravam. Foi-se desfazendo até chegar ao ovo. No instante seguinte pensou em tatuar uma palavra no seu corpo para ressignificar aquela espiral, “fé”, ”trabalho”, “eu”. Escolheu a última e deixou o resto pro final, coisas acabam, relacionamentos acabam, até o mundo vai acabar um dia... Sabe quando a gente grita e não ouve a própria voz porque o mundo é mudo, surdo e distante? Largo demais. Sabe quando a gente quer se esconder e do lado de cá não dá pra ficar? Nem do lado de lá. Eles a julgavam só porque ela tinha pressa em ser feliz. Eleanor. Eleanor. Você está me assustando. Não faz assim.

WhatsApp Image 2019-08-13 at 5.02.10 PM.
Dois

O que podia ser pior do que estar serena? Para ela era estar viva. Eleanor esperava o ir. Descobriu como acreditar na vida tarde demais. Não aprendera a amar. Um tanto fechada. Uma falta de riso. Um bocado sem alma. Inventava personagens para não sufocar. Parecer sempre ocupada a fazia sentir-se interessante. Não era. Viver reclamando como se a vida não fosse suficiente para seu brilho a fazia sentir-se inteligente. Não era. Havia virado a antítese de si mesma. Para que servem os sonhos, o trabalho e a família se não para fingir felicidade? Era egoísta. Por isso estava àquela hora do dia bonito e ensolarado, sozinha, em sua casa de rica. Nem um amigo, caso, ou filho. Nem agregado. Era altiva e completamente infeliz. Achou o dia tranqüilo demais. Pensou em se matar. Onde estão meus remédios? Tratava-se há anos com um médico famoso. O senhor dos loucos. O senhor da loucura dela. Desistiu imediatamente de procurar seus remédios para tomá-los todos de uma só vez, ou quem sabe, misturar os da manhã com os da noite para ficar bem louca. Achou melhor esperar o dia piorar. Qualquer coisa podia fazer seu dia piorar, e muito, a visita de um amigo, caso, ou um filho. Tinha uma filha jovem e cheia de vida. Não se falavam. Eleanor havia sido quinhentas milhões de vezes bonita. Era preciso pedir perdão por ser assim. Mesmo linda era invisível, sem cor. Seu mundo era injusto e um lugar frio. Lembrou-se dele. Minha vida inteira foi sua e de nada adiantou. Lembra de quando fomos felizes? Podíamos ter mudado o mundo e agora eu sangro. E você ri de mim. Eu só vou se for com você. Você ouviu o que eu disse? É preciso gritar? Com você eu contei estrelas, conversei. Fomos amigos, não é mesmo? Não deve ser mais fácil, só mais natural. Sabe o Big Bang que fez a gente vivo. Penso nisso todos os dias. Nas galáxias. Planetas. Tudo o que tenho dentro de mim são planetas. E você já foi minha galáxia. Tem noção do que é ser a galáxia de alguém? Você era Plutão e o Sol. Vamos tomar um vinho. Eu quero ver como é tremer de emoção de novo. Quando se está prestes a enlouquecer o melhor a fazer é sair de casa mas não tenho para onde ir, nem ninguém pra convidar. Estava apática, inteira, polida e um pouco mais perto do fim. Deixou os cabelos ao vento e sorriu. Que se dane. Aquilo tudo era cafona, palavra estranha, estavam mofadas sua vida e a roupa de cama. Abriu a janela para deixar entrar gratidão. Ela não veio. Pensar em você me adoece. Não via nada a não ser o eco de seu passado e araras. Eleanor não precisava delas.

WhatsApp Image 2019-08-26 at 11.37.20 AM
Três

Eleanor pegou uma caneta macia e escreveu um bilhete: Não consigo me reinventar. Desculpe. Estava de volta ao seu carma. Tenho raiva de você com nome e sobrenome, sou ondas circulando um coração sempre ao seu lado, sempre. Queria que você não tivesse entrado em minha corrente sanguínea o que nos fez vampiros, predestinados, eternizados. Pelo menos eu. O que posso dizer? Começava outra vez, sabia que aquilo fazia mal, e ainda assim, inventava máscaras para deslocar-se de si mesma como uma personagem Lispectoriana, só que vulgar. Foi lá e serviu mais vinho e fez projeções, escreveu delírios que a inundavam enquanto duravam essas catarses e seu sangue esquentou, ela perdeu os olhos e deixou de ver com clareza, afundada que estava em total confusão. Pensou sem reflexos: ele conseguiu me acertar, absorvi o impacto primeiro, mas depois cedi a envergadura do golpe e perdi a guerra. E foi mais longe, eu não sei quem é essa mulher, mas ela é o tipo de pessoa que não pediu para existir, é como alguém que se lasca no fim da história. Essa sou eu, falou alto e assustada. Desse jeito seria difícil sair de casa, não aguentaria a festa de anos da turma da faculdade onde ele, invariavelmente, estaria. Ela nunca havia ido aos encontros da turma onde os colegas encenavam felicidade mesmo depois de tanto tempo, como se isso fosse possível quando não se tem mais juventude ou beleza, criatividade ou coragem. Para ela esses encontros eram um blefe, mas dessa vez estaria preparada com álcool saindo pelos poros e totalmente desigual. Batom vermelho sangue na boca já um pouco caída, lenço de seda, perfume francês. Iria esperar em posição de guerra e se preciso, furaria os olhos do oponente, por rancor. Daria respostas curtas a perguntas tolas: Casou-se outra vez, querida? Teve mais filhos ou só a menina? Última viagem...? Você não tem facebook porque? Celular, me dá? Não, não dou, não tenho, nem sei porque vim até aqui e podemos, por favor, parar o teatro e voltar àqueles meninos e meninas que éramos? Não precisamos contar vantagens para parecer melhores, as recordações são mais pessoais que os momentos, não é mesmo? Por isso, mais especiais também. Guardem as recordações para vocês e deixem as maravilhas de ser quem são para os amigos íntimos. Talvez eles tenham paciência. Tudo o mais é desnecessário aqui, voltemos da superfície sendo mais honestos, sabemos que há crises humanitárias ao redor do mundo por causa da fome e vocês com seus ternos caros. Quando não sabíamos o rumo das coisas multiplicávamos esperança, agora somos só dor... Ela não disse tudo exatamente mas estava entediada e pela disposição acabaria com a festa. Na mesa do DJ rolou  a versão de “A rainha da Noite”, de Mozart, gravada por Edson Cordeiro e ela caminhou. E: olhem ao redor, é sobre dinheiro e isso está impregnado nas roupas, vozes, no jeito afetado de ser de vocês. Uma fogueira no meio do mato seria mais divertido e poderíamos destinar o dinheiro da festa para algo precioso de verdade (isso da fogueira ela disse literalmente). Viu que uma colega parecia ter engordado e discursou sobre a importância de comer bem. Reparou brincando, sem fazer graça, que um colega havia ficado calvo, e começou a furar as aparências como imaginou fazer. Suas questões, meus amigos, não me deixam relaxar. Onde uma mulher desacompanhada pode se sentar nesta festa sem ser desprezada por todos? Esperou. Eles a conduziram até uma mesa no meio do salão aceso e branco, de gosto duvidoso como todo o resto. Ninguém perguntou como ela estava. Ficou sozinha sem que colega algum ousasse se juntar, até que ele apareceu, e ainda que tivessem uma filha juntos, era como se não tivessem nada. A menina havia sumido, ele sumiu, Eleanor desaparecia. Vou lá. Entrego o bilhete. Talvez ele saiba mais sobre mim do que eu mesma. O homem que corria no seu sangue era tudo para ela e chegava coberto de bossa. Mudou o tom da noite sendo ele próprio e fez tudo parecer melhor, o canalha. Eleanor ficou sóbria tão de repente como de repente se levantou e passou por ele rápido demais. Sentiu sua vida esvair-se. Isso será morrer? Antes de sair do salão sem que ninguém fosse atrás dela, entregou o bilhete. Em casa derretendo de cólera pensou nos refugiados nas fronteiras que separam os países, nas baleias sem chance de existir, na corrupção dos homens e abraçou seu livro de cabeceira. O Príncipe Míchkin, de  O Idiota, era difícil para ela decifrar. Ainda estava no começo do clássico de Dostoiévski mas sabia que o personagem principal não suportaria os dias de hoje. Idiotas. São todos imbecis.

WhatsApp Image 2019-08-11 at 6_edited_ed
Quatro

A casa ao lado começou a semana movimentada. Gente entrando e saindo rompendo um ciclo de alguns anos sem barulho. Era uma casa bonita mas estava abandonada, só apareciam por lá a faxineira de vez em quando, e um ou outro rapaz para abaixar o mato, coisa que Eleanor achava ótimo senão sua casa também sofreria com bichos, insetos e doenças. Neste dia estavam a ajudante de limpeza, o menino da roçadeira, uns outros sem função definida; todos com pequenas caixas. Conversas entre eles se fizeram ouvir altas. Alguém se mudava para lá, era certo. Mas quem? Eleanor não conseguiu captar nada coerente e a noite chegou trazendo frio e solidão. Depois do banho, vendo a luz acesa no jardim ao lado, sentiu uma coisa diferente, uma pequena letargia por saber que alguém estava perto dela. Uma família inteira, talvez, crianças correndo pelo quintal, xingando e berrando. Não. Tomara que tenham vindo sem filhos, crianças fazem arruaça e só, nunca ficam quietas. Ligou a televisão. Ligou depois o som. Ligou o fogão para fazer uma sopa. Ligou a luz da varanda para dar boas-vindas aos vizinhos, foi ligando e desligando, eletrodomésticos, luzes, suas esperanças. Estava ansiosa sem saber direito a razão, e no dia seguinte, nada da gente nova aparecer. Ela, como não era de amigos, não teve notícias por ninguém da cidade, nem no supermercado ou no banco, faziam questão de não conversar com ela que não ficaria sabendo de nada se dependesse do povo daqueles ermos. Gentinha. Eleanor morava na cidade há 3 anos, muito a contragosto, precisou deixar a capital por ordens médicas. Não conhecia quase ninguém e fazia questão de não alterar este cenário. Algumas semanas se passaram desde a mudança na casa vizinha e pela ausência de convidados, ela imaginou tratar-se de um casal idoso. No máximo. Foi em um sábado pela manhã quando ela saía de casa de carro, que deu com ele, saindo à pé. Buzinou atônita. Buzinou outra vez inconsequente. Eles precisam saber que eu existo, estava incomodada. Abaixou o vidro do carro e foi dizendo oi, mudou-se foi? Ele tinha de se manifestar, vizinhos fazem isso, venha dar um bom dia, apresente-me sua esposa. De longe ele não pareceu velho e quando chegou mais perto, ela viu que podiam ter a mesma idade, ele era saudável e corado. Joaquim. De Portugal. Esta quinta pertencia ao meu pai que morou aqui a maior parte da vida. Eleanor (solitária, ignorada pela própria filha, doente pelo ex e cheinha de problemas, não se aproxime de mim), seja bem-vindo. Conversaram brevemente e houve uma sinergia, mas e a esposa, onde está a esposa do português. Eleanor não perguntou. Alguns dias se passaram e ele tornou a aparecer no portão. Moro em Nazaré, gosto do mar, do sol, “estou a vender” o imóvel e logo voltarei a Portugal. Eleanor aborreceu-se. A saber, ficou triste mesmo. É melhor assim. Àquela altura ela conhecia mais o cara, um egocêntrico sem esposa, sem amigos, frio e certamente um cretino como ela. Joaquim também a conhecia um pouco mais, pesquisou sobre a senhora sua vizinha no supermercado, no bar, falava com pessoas, extrovertido, e logo soube tudo o que precisava saber para enfim, depois de mais alguns encontros rápidos no portão, convidá-la para um “copo”. Bateu à porta dela e chamou-a para sua casa, sábado à noite, por volta das sete. Eleanor disse sim e na ocasião, usou abacate no cabelo para se preparar, máscara caseira de mel no rosto, ouviu música enquanto lia um livro qualquer tentando se acalmar, e no fundo, no fundo, não gostou daquela agitação. Do quente na barriga. Beberia algo antes de ir, não, melhor não. Lembrou-se do seu histórico com homens e outra vez sentiu medo. Às sete em ponto foi pela rua de paralelepípedos centenários até o estranho. Desviou da calçada coberta de entulhos ainda da mudança dele, um absurdo, e pela primeira vez em muitos anos, não se sentiu completamente infeliz.

WhatsApp Image 2019-08-26 at 10.43_edite
Cinco

Joaquim estava ofegante ao recebê-la. E cheiroso. Ela, deslumbrante. Os vinhos portugueses à mesa pareciam bons, “vamos a começar” pelos melhores, disse o anfitrião simpático e um tanto sedutor. Conversaram animadamente, enquanto degustavam aperitivos que ele mesmo preparou e mostrava a ela, orgulhoso. Dava sinais de ter trabalhado muito para a noite impressionar. Como Eleanor percebeu o interesse de Joaquim por gastronomia, rezou de mãos juntas e olhos fechados para que ele não fosse o tipo de homem que fala de ingredientes e receitas a noite toda. Isso seria chato pra caramba. O prato principal foi servido em seguida, um assado encomendado por Joaquim para a mais famosa cozinheira da cidade, que seguiu à risca as recomendações de feitio da culinária portuguesa. A noite ia alta e não falaram sobre coisa alguma, só amenidades. Estavam leves e pareciam se conhecer há anos. Depois do jantar, que comeram “de joelhos”, agradeceram o momento cada um a seu modo. Eleanor embriagada, não parava de rir, fazia um barulho desconexo que às vezes lembrava uma gargalhada, outras vezes um choro. Ele? Bem, ele parecia estar sempre no céu. O porto foi o derradeiro vinho servido e foram tomá-lo, com certa cerimônia, na varanda que ela via acesa toda noite e na qual imaginou, no início, uma família inteira. Joaquim fez uma fogueirazinha e começou falando sobre o pai.  Agora estava sério. Quando ele mudou-se para o Brasil deixando em Portugal mulher e filhos, Joaquim era apenas um menino e cresceu abandonado. O pai veio trazendo consigo uma pequena herança e refez a vida sem jamais sentir remorso. Foi à Lisboa pouquíssimas vezes, tendo visto os filhos umas 4 ou 5 vezes em toda a vida. Com suas parcas economias mal conseguia se sustentar, e por isso mesmo, não mandava nada para a família em Portugal, que só não deixou de existir porque a mãe de Joaquim foi um bicho de coragem. Nem a mãe nem o pai casaram-se novamente. Joaquim não veio enterrar o velho, foi alguém da cidadezinha que cuidou de tudo e ele próprio, o filho, rejeitado e decepcionado aportou no Brasil somente 3 anos depois, para vender a única propriedade da família, a casa antiga mas em ótimo estado no interior do Brasil, nos arredores de uma cidade maior. Ao chegar, Joaquim nada quis saber sobre a vida do pai, não fez perguntas, dívidas ninguém cobrou, irmão outro não apareceu e ele foi ficando, até ver diminuir a raiva que nutria pelo Brasil desde criança. Descobriu algo curioso, o número da casa do pai, o que estava no muro da propriedade, era fruto de um erro. Quando menino, Joaquim escreveu ao pai muitas vezes e enviou as cartas para o número 629 da rua Jacareí, na Cidade de Flores, endereço que consta até hoje na escritura, mas jamais recebeu reposta. As cartas nunca foram entregues e ficaram retidas na agência dos Correios esperando alguém reclamar por elas. Nada. Um dia o menino virou rapaz e cansou de escrever e agora, em terras brasileiras e depois de tanto tempo, ele descobria uma cilada da vida. Mas nem por isso perdoou o pai. Ao chegar na casa no dia da mudança, Joaquim viu que o número da fachada estava incorreto. O seis havia desaparecido. Pode ter estado lá um dia e pode ter se soltado e caído  no chão sem que ninguém percebesse (suposição dele) e assim, 629 passou a ser 29. Por isso as cartas não chegavam. Como a cidade era pequena, as pessoas assimilaram o novo número com naturalidade sem questionar (suposição dele) e um belo dia, o pai de Joaquim comprou a casa com o número errado mesmo e morou nela a maior parte da vida. Ao sair da agência dos Correios, com as cartas lacradas e amareladas nas mãos e repleto de ilusões da sua infância, Joaquim sentiu vontade de chorar e teve raiva do pai, o maior de todos os canalhas. Mas por que diabos ele estava falando do pai? O dia começava a nascer e Eleanor estava ali. Era hora de tirar sua roupa.

MVI_5166_Moment3.jpg
Seis

Depois do sexo ficaram na cama até cansar. Sem conversar. Sem nada. E outra vez mais, Eleanor sentiu que era preciso fazer o caminho inverso, voltar para o abismo do seu eu profundo. Não suportava tanto contentamento. Perfeita era uma palavra insignificante para descrever a noite e o que acontecia entre eles. Como isso era possível? Ela devia sofrer, sempre sofrer, não transitava bem longe do caos, acostumara-se a ele. Mesmo diante de uma experiência de bem estar, era imperativo para ela se recolher, resistir. Não se render ao acaso da felicidade. Sem controlar a situação, sem saber o que esperar depois. Ele vai embora de um jeito ou de outro, sua tola. Eleanor não adulava nem a si própria. Tinha de sair imediatamente de lá para afundar-se no cinza da sua vida. Trancaria a porta e esconderia a chave para não sair ao sol nunca mais. Como ousa ser feliz e fazer o melhor sexo da sua vida? Neurose tem forma e até cheiro e ele pôde sentir. Pra salvar sua vizinha entrou no pesadelo dela. Fale-me de você, pediu, imaginando o fantasma que surgiria dali se desprender dela, nem que fosse por um instante. Joaquim a entendeu já nas conversas preliminares, no jantar, e até na cama. Viu angústia. Continuaram imóveis numa espécie de catarse, sem qualquer estímulo até que ela começou baixinho, prendendo a respiração. Conheceu João na faculdade e se encantou com a eloquência, a irresponsabilidade, a inconsequência, a paixão dele por cada tudo que existia. Primeiro ficaram amigos. Foi apenas no último ano da faculdade que se apaixonaram. Mantinham um relacionamento aberto. Ele tinha outras parceiras amorosas, ela não, até que a gravidez, ao contrário de toda suposição lógica, fez morada na vida dos dois. João ficou feliz e quis casar. Vinte e poucos anos cada um, recém formados, ela sem emprego ainda, ele estagiário em um escritório de Direito no centro da cidade, carreira em que logo ascendeu profissionalmente. Talento bruto. Foram ótimos anos, neném forte, João trabalhador, positivo e só dela... Ao lembrar da história, Eleanor sentiu como se assistisse uma série na TV e sofreu, sofreu muito ali. Vamos terminar com isso. Levantou-se da cama, inventou uma desculpa qualquer, e despediu-se dele. Saiu prometendo para si mesma não voltar, e viu que o dia estava feio. Nuvens escuras. Havia pouca honra no ar.  Semanas se passaram sem que eles se encontrassem. A campainha tocou algumas vezes mas Eleanor não atendeu. Sabia quem era, o gostoso que caiu no colo dela de repente, e de quem ela fazia pouco. O tempo passou, os encontros meio planejados no portão não se repetiram e Eleanor soube, pelo escuro da casa ao lado, que Joaquim havia voltado a Portugal. Ótimo, sabotando-se de novo, esta história não tinha sentido algum. Achou a hora apropriada para afogar-se na piscina suja do seu quintal. Ah se eu pudesse escolher, morreria. Sem ter o que fazer, nunca tinha, começou a escrever pra ele uma carta, sobre João .... e João deixou de me amar, simplesmente, escreveu com sinceridade a lápis, para poder apagar caso a verdade fosse inconveniente demais. Mas como enviar a carta se ela não tinha o endereço dele. Decididamente cartas não combinam com Joaquim. Releu o papel dez vezes: Nos separarmos quando a menina tinha 15 anos e ela foi morar com o pai, fazendo um rasgo no meu coração que vive aberto até hoje. Viver me angustia, Joaquim. Como foi que eu deixei tudo pro final? Os acertos com minha filha deveriam ter sido feitos, os amores vividos e João esquecido. Nada. Por onde andas? Foi embora sem se despedir de mim. Espero que você não seja o homem que renova suas afeições, tão displicentemente, porque elas não duram para sempre, é preciso adubo. Nada. Minha filha, ao se transformar em mulher, mudou de país Joaquim, e eu não consigo mais dizer o nome dela, sabe que isso para mim é como se ela estivesse morta, não sabe? Nada. Eleanor pegou o telefone e marcou uma consulta com seu médico, voltaria a tomar antidepressivos, todos juntos, de uma só vez. Cada dia renovava essa promessa  e não cumpria, e cada dia um pouco mais da sua encarnação ia sem rumo, como o reflexo de um fantasma perambulando solto pela sala. Acabou. Acabou. Acabou. Dormiu e acordou. Dormiu e acordou. Num átimo, entre coisas que nunca dão certo e a vida que corre na modorra, tudo mudou, é sério. O “eu quero morrer” virou “quem disse isso?” depois que uma carta de Joaquim a encontrou. Naquela tarde, Eleanor viu tubarões com asas nas nuvens do céu.

IMG_20190905_114954189-01_edited_edited.
Sete

Ela se cobriria de joias para impressioná-lo e sentada no chão seco, divagava, enquanto esperava por ele torta de desejo. É possível que ela estivesse feliz com a chegada do português, embora este fosse um sentimento sem complacência ou idealização. Uma mulher sofrida não se entrega, mesmo que o encontro seja um acontecimento maior do que quase tudo o que se teve na vida. Era um pensamento periférico, sua vida havia sido sem relevância, mas quem se importa? Joaquim chegaria à tarde, e ela tinha motivos para beber e assim, taça na mão, deixou entrar o jardineiro logo cedo para cuidar dos canteiros. O menino da roçadeira aparou a grama uns dias antes, e a equipe da piscina com o contrato renovado e as dívidas quitadas, deixara o buraco no qual ela quisera, tantas vezes se jogar, azul. Agora ela tinha ondas claras no quintal. Como é ridículo um dia feliz nesta casa horrorosa de destino, que não muda. Àquela altura, o bem estar que o álcool proporcionava era algo que ela não reprimiria. Estava mais colorida, unhas feitas, passeios pela cidade, alguns cumprimentos e roupas. Uma noite com você e eu já mudei, refletiu com raiva diferente da que sempre sentiu e quem sabe, com o coração. Ao experimentar as combinações possíveis de saias e blusas, achou-se bonita. Chega logo. E ele veio com um pequeno embrulho nas mãos, e mais moreno do sol. O sorriso mais branco. São para ti! Eram livros. Com a barra do vestido novo ainda suja de terra, Eleanor prestou atenção especial a um livro verde, mais fino que os outros e deu um beijo na boca dele, antes de atirar-se na cama. Dormiu bêbada. Joaquim passou o resto do dia cuidando dela, nada demais, e prevenido, sabia exatamente o que não fazer para preservar o espaço conturbado da moça; planejou ir embora, sem ficar para passar a noite. Foi para a casa ao lado, a casa que sempre seria de seu pai e quando tornou a aparecer, trouxe consigo outro presente. Um telemóvel para estarmos sempre em contato. Eleanor fingiu gostar, e fez uma foto de si mesma com o aparelho. Guardou o celular no armário, para sempre. Enfim, sexo. A textura do corpo dele ao abraçá-la, fizera Eleanor tontear. Estava comovida, tagarelava, cantava e novamente, bebia. Colocou flores em cima da pia para Joaquim preparar o jantar, trabalho que ele fez sozinho, sem reclamar, enquanto ela falava sem parar. Comeram. No sofá da sala, ela pediu informações ao amigo sobre o livro. Noite sem brisa. O escritor do livreto era um garoto brasileiro, de 7 anos, e o texto continha palavras escritas de forma errada, como escrevem as crianças nesta idade. Lançado primeiro em Portugal, a história do livro envolvia um palhaço, uma cabana, e dois amigos em perigo; ingredientes comuns para as crianças, porém, com desenvolvimento peculiar na imaginação do jovem escritor. Dessa vez, leria o livro em voz alta. Para ele. Os dois filosofaram sobre o enredo de horror divertidamente, e desse modo, mesmo sem conviver com crianças, e não sendo a mais amável do mundo com os pequenos, o livro despertou nela, saudades da filha. Se de um lado a cozinha parecia mais viva, de outro, o resto da casa, ao contrário, estava apagado e sem graça. Eleanor era sua única companhia fora os livros, muitos deles, principalmente no último ano quando os telefonemas das pessoas que se importavam com ela foram sumindo. Ela ficaria louca em breve, não existe remédio para vontade de não viver. O fato é que um homem aparecera na sua vida e ao cuidar do jardim e tirar as joias do fundo da gaveta; ao cuidar de sorrir para os outros e comprar novas roupas, Eleanor descobriu que gostava dele. Sua cabeça girava, e não era a bebida. Os remédios a faziam ficar com a boca seca e ela brigava com os personagens dos seus livros prediletos, e gritava. Gritou com Joaquim depois de filosofarem sobre o livro, e o som ecoou pelo espaço pequeno. Remédios pretos, controlados, usados por tanto tempo, sem melhora, se tu não parares, morres. Será que enfartaria se parasse de repente? Teria um AVC ou coisa parecida? Se morresse, morreria, contanto que fosse feliz um dia. Ele? Ele aparecia e ia embora. Chegava e saía. E fazia isso porque gostava dela.

WhatsApp Image 2019-10-28 at 20.43_edite
Oito

Joaquim acorda! Eu preciso sair para comprar alguma coisa, qualquer coisa, estou deprimida e confusa, e quer saber, antes eu tinha meus remédios, mas agora eu só tenho você. Eu sei que você é mais viril que simples frascos e mais bonito, mas meu estado psicológico funcionava melhor quando era sedado com cápsulas multicoloridas. Eleanor riu e cutucou o homem. Acorda. Eu preciso comprar uma bolsa, uma sandália, um vaso de flor ou até mesmo um travesseiro, trazer algo de concreto para perto de mim, algo que eu segure com força, tenha cheiro e textura e que eu possa abraçar e tocar depois do banho. Vou sentar na minha cama, ligar o ar condicionado e passar óleo demoradamente no meu corpo, e vou alisar meu presente novo assim, olha... Eleanor gargalhava. O médico disse que eu não posso ser contrariada, então me leva. Levanta! Onde encontraremos um perfume francês nesse fim de mundo, perguntava baixinho para si mesma, enquanto vestia um jeans com blusa floral, solta. Ah, pode ser um chapéu. Adoro chapéus. De bom humor, imaginem isso, ela queria que o mundo a visse naquele momento em que Joaquim havia dormido lá pela primeira vez e eles acordavam juntos. O saber do corpo dele ao lado do dela, durante a noite, aplacou momentaneamente a agonia que sentia e a mulher amarga agora fazia piadas pela manhã. E não era só por ele ser sexy, culto, inteligente e bom cozinheiro e amante. Mas essencialmente, porque ele tinha um coração despojado. Saíram pela cidadezinha e foram entrando em pequenos bazares cheios de produtos chineses; lojinhas fora de moda e perfumadas por incensos que revelavam memórias esquecidas por ela; passaram por vendas tradicionais com garrafas de pingas caseiras no balcão e pôsteres desbotados nas paredes. Eles procuravam um traço de lucidez que os ligasse à vida real. Algo que os conectasse a um novo começo. Ali estavam descomplicados e surreais, embriagados num pileque. Uma sensação praiana, como quando você ouve Ramones e quer surfar, sabe? Eleanor deixava-se serenar, estava mais permanente na vida, e Joaquim, que era puro barro, aumentava a percepção de que nem tudo estava perdido para ela. O homem doava dinheiro para a caridade, fazia trabalho voluntário, não tinha ambições daquelas que matam as pessoas pela materialidade exacerbada, e ela estava convencida, de que ele não era desse planeta. Mesmo maltratada, sempre haveria para ela um amanhã e os dois foram se achando nesse futuro incerto, inventando o dia seguinte, e cada encontro abria espaço para um pouco mais de vida acontecer. Em uma rua estreita, daquelas escondidas, descobriram uma loja com certa personalidade e, uma bata indiana azul falou com ela. É essa! Eleanor mais cedo pensou em uma cor que retratasse o momento da sua vida com Joaquim, azul, a cor da bata que comprou. Saiu da loja usando a peça nova. Adrenalina esparramada pelo corpo. Precisamos beber e de um beijo. Em frente ao Coreto, na praça principal da cidadezinha, tinha um bar e dentro do bar, tinha mesas de plástico, amarelas. Para eles o dia ia fresco e ameno. Eleanor acabara de voltar de uma clínica neurológica na capital, onde ficou internada por duas semanas. Em sua última consulta teve um colapso por conta da interrupção abrupta dos medicamentos e para limpar o organismo dos remédios, fez um tratamento à base de sono e soro. Você não devia ter parado sem supervisão, disse o médico, revoltado. Os dois não ligaram, atitude irresponsável e por algum motivo inexplicável e contraditório, cheia de fé. Foram momentos difíceis para eles. Joaquim quando a levou à consulta, não previu o pior, não era sequer amigo de longa data ou namorado oficial. Eles ainda travavam uma aproximação, arrastada, cada um com seu repertório amoroso e decepções, e por isso mesmo, eram cuidadosos do melhor jeito que podiam ser um com o outro, e ao ouvi-la gritar no consultório médico, ele fraquejou. Sem saber muito bem o que fazer, Joaquim desejou nunca ter voltado ao Brasil. Como era um homem de bom sentimento, pediu o número do ex marido dela para a própria Eleanor e ligou para avisar o cara. Enquanto ela ficou na clínica, na cidade grande, Joaquim voltou ao interior, à casa de seu pai; mais de uma hora de viagem os separava, trajeto que ele fez 3 vezes para vê-la e em todas as vezes, sentiu-se caindo, como se fosse tragado para dentro de uma outra vida longe de tudo que lhe pertencia, longe de tudo que era. Em uma das vistas, Eleanor em transe, dormindo acordada, disse ao português que chegaria o dia em que o planeta seria habitado apenas por bichos e insetos; haveria lugar tão somente para plantas e rochas, árvores e matas, rios e oceanos. E os homens iriam morar no céu, perto do Pai, para formarem juízo e se penitenciarem. Para Joaquim aquilo fez todo sentido.  

WhatsApp Image 2019-11-08 at 19.16.02.jp
Nove

Se ela pudesse escolher pediria a Deus para ser cantora, daquelas totalmente completas, as que compõem e cantam com voz atraente e arrastam o público que bate palmas ensandecido e pede bis. Seria cantora lírica, dramática e atuaria nos palcos mais prestigiados da Europa ao lado de tenores cultuados e diretores premiados. Usaria roupas longas e brilhantes, num estilo clássico e atemporal de dar inveja; teria tanto dinheiro que não se importaria com ele. Ou, seria uma vadia. Por que não cantar rock pesado, vestir-se de preto e ter caveiras tatuadas pelo rosto e um monte de amigos drogados? Faria shows em palcos clandestinos, cercada de gente maldita e sem sucesso. Desde que cantasse. Eleanor não é de agora e não é daqui. Desde que pudesse encontrar-se com Deus lá no começo, pediria a ele uma ajudinha extra na vida, cantar, não importa onde, para quem, por quanto dinheiro. Se pudesse escolher, entraria na fila dos talentos toda vez que tivesse chance, deixando para trás a fila dos vaidosos, e diria a Deus que não precisava daquilo que um dia acabaria de fato, a beleza. O talento não, ele não morre, pode até melhorar com a idade. Eleanor tinha horror dos egoístas que pipocam pelos telhados do mundo com suas pretensas coroas de grandeza. Os que brotam em cada esquina em que se vá e multiplicam-se como filhotes de gatos de rua. Os que conjugam os verbos na primeira pessoa. Ah, não gosto dessa gente.  Perguntar como ela estava, ninguém perguntava. Então, parou de falar e já não ouvia. Franzia o cenho, esboçava um sorriso e fingia conversar, mas seu pensamento era livre e ela sentia-se poderosa por não estar ali de verdade. Nem mais nem menos. Nos seus anseios mais íntimos ela cantava como ninguém, só não sabia ao certo se era uma celebridade ou uma aberração. Na vida real cantarolava, deixando-se flagrar por ele. Cantava desafinado mas sua composição tinha certa graça e métrica. Na sala da casa dele, já reformada, apressou-se a apresentar ao amigo sua nova risada, aberta, surreal e cantou. Eu não estou sozinhaaaa. Joaquim alegrou-se com a brincadeira e cantou também, eu estou com a Eleanorrrr, e ela é toda loucaaaa, já falando português do Brasil. Ali faltava tudo, amor de pai, de filho, de casamento, de trabalho, menos a empatia e energia deles que os fazia crescer de tamanho. Podiam incendiar o sol porque eram raios e eram parecidos e especiais. O que viria agora? Eu sou uma vírgulaaa, cantou a diva.

WhatsApp Image 2019-12-14 at 07.15.57 BO
Dez

Sim, eles formam um casal, mesmo que ela seja só lamúrias e que matem um porco por ali. Aconteceu algumas vezes desde que ela se mudara e Eleanor não podia com aquilo. Os gritos eram terríveis. Corria na cidade, à boca pequena, que os animais eram comercializados depois de mortos, contrariando a ideia de que foram sacrificados para consumo próprio. O culpado, ela não conhecia, ela não falava com ninguém dali, como saberia?; mas pelo barulho era gente de perto. O som vinha do alto da rua, a mais antiga da cidade, época de fazendas e criação; propriedades que foram virando chácaras com o passar do tempo, diminuídas de tamanho para cumprir seu papel em inventários com inúmeros herdeiros. O costume de abater animais domesticamente, entretanto, perdurou em algumas famílias. Para ela o lamento excruciante do animal fazia crer que ele fora esfaqueado mais de uma vez. O vizinho cometia sérias violações. Dentro das cidades o abate é considerado crime, pois contamina o lençol freático e viola a lei sanitária. Violaria também a lei dos animais se alguém legislasse por eles, pensou. E foi ficando nervosa. Não pode! Ficou triste. Não pode! A angústia só acabou quando o bicho parou de reclamar e morreu. Um mal estar tomou conta dela que não tinha se levantado bem pela manhã e assim, fragmentada, correu para a casa do seu par. Eleanor acreditava que o despertar da consciência era um estágio antinatural, contrário à convivência social e próximo da morte. Ficava cada vez mais difícil interagir. Joaquim era a única exceção. Com o lamento do porco na cabeça entrou na casa dele e o cheiro do café coado fez seu pensamento aplainar. Formamos um casal. A ideia estancou seu sofrimento e aliviou a tensão momentânea, e ela o abraçou na cozinha. Tudo que vinha dela vinha cheio de verdade. Não se deve esperar nada de ninguém, meu bem. Viver dói. Tinha vergonha de se repetir com ele mas não aprendera a fingir. Tomaram café em silêncio, talvez buscassem homenagear o porco. Eleanor fez que sim com a cabeça quando ele a chamou para Portugal. Joaquim precisava voltar ao mar. Mas isso é uma outra história. Quase seis meses se passaram desde que ele veio da Europa vender a casa do pai, e eles estavam íntimos, uma cumplicidade arraigada, porém pouco divididos. Não iam se reduzir até o zero, era certo; invariavelmente os dois, príncipe e princesa caricatos despediam-se toda vez que a profundidade ameaçava surgir. Os dois combinavam em quase tudo no amor, e antes de se esgotarem, largavam-se. Eleanor não era de espreguiçar-se demoradamente na vida, estava sempre reta de atenção. Estou sendo maldosa com ela? Joaquim compraria um final feliz para os dois se tivesse chance, mas não tinha posição. O que eu faço com ele? A mulher, boca gostosa de café, resolveu fazer suspiros e só por hoje não vou ser desagradável. Ou talvez, só por agora. Não sabe o que deu nela. Foi lenta e docemente pegar os ingredientes, preciso de açúcar refinado, Joaquim, muito açúcar para semear a gente, e claras, fogo brando, temos de misturar com a colher de pau, você tem uma? Banho maria e batedeira. Trago a minha, uso batedeira normal mesmo, sou boa demais com suspiros. Eleanor e Joaquim eram solitários cinzentos, último estágio da pirâmide das emoções, próximo de um retorno impossível ao amor; mas guardavam uma esperança secreta, como o descrente que vai viajar e pede ao amigo fiel a Deus que ore por ele. Às vezes esperar tanto tempo para que algo aconteça pode não ser tão ruim. Veja o Joaquim, disse para si mesma a mulher.

WhatsApp%20Image%202020-01-28%20at%2019.
Onze

O ex-marido não ligou para ela no Natal o que a fez abandonar o leve esperar de sempre e dar de ombros. O pai de sua filha sequer ligou na clínica quando Joaquim o avisou da internação. Talvez esteja no exterior, disse Eleanor na ocasião. Mas agora, paro por um instante?, não!; que  ele se dane de um jeito longo e penoso. Até o Natal Eleanor foi vivendo como sempre fazia e para a ceia tratou de convidar o novo amigo da casa, Osvaldo, seu jardineiro. Noite sem árvore, sinos, ou luzes, igual aos últimos anos só que com gente, seus dois amigos verdes. Laços. Isso o Natal dela tinha em forma de afeto, carinho e amizade, e tinha também um peru que o português preparava. Aquilo era felicidade? Os três criaram uma relação nas vezes que se encontraram no jardim, o que era pouco, mas foi suficiente. Eleanor e o jardineiro tinham longas conversas desde que este começou a cuidar dos canteiros, e os dois homens, carentes de falas masculinas, ficaram amigos ao tomarem cerveja juntos sob o sol escaldante toda santa vez que o jardineiro jardinava. De lá pra cá muita coisa mudou. Com o jardim refeito e exalando perfume de flor, a vida dela seguia com dignidade resgatada à força e também afinidade, para não dizer amor e soar piegas. As coisas pareciam ir bem. A amizade entre os três era como um fruto não amadurecido. Eles tinham histórias parecidas para contar, eram velhos solitários mas nem por isso vazios de vida; Eleanor, sombria e cansativa, era uma mulher especialmente lúcida e dessa vez, só dessa vez, sóbria. Sem os remédios pretos tomados como solução para os males da vida, ela pensava pensamentos mais orgânicos, ainda graves e conscientes, mas nem uma vez azedos como de costume. Eram inclusive um tanto eróticos. Estaria voltando a acreditar no amor? Osvaldo, o novo gene no grupo, crescia em importância para os dois, você só será nosso amigo de verdade se quiser, disseram Eleanor e Joaquim. Osvaldo quis. Era um velho bonitão, bancário aposentado, e carregava uma outra convicção diante das coisas. Igualmente infeliz, dizia-se disposto a não mudar o mundo. Não querer mudar as coisas faz de você o quê?, começaria Eleanor que pretendia fazer o mundo girar ao contrário para acertar tudo. Isso se fosse antes, e se ela fosse rasa; mas ela se importava com o novo amigo e se importava de um jeito profundo. Desistiu do embate. Para Osvaldo a jardinagem era um hobbie, um jeito de sair de casa e não ficar inerte. O homem precisava de gente por perto como um drogado precisa da raiva por dentro. Dedicou a vida a uma sala sem janelas, pouco ar circulando, cheiro de corpos cansados. Tudo aquilo e nada depois. Foi contaminado pela burocracia de paredes brancas e nisso perdera seu casamento, a relação com os filhos, a convivência com os netos e a vontade de mudar o mundo. Na noite fina a conversa entre os três ia animada. Então, ela pegou um livro. Parecia convencida por aquelas poucas folhas. Tudo começou com Joaquim e o livro de capa verde trazido de Portugal. Ele a fizera ficar com essa mania de livro de criança na cabeça. E interessada na plenitude do resto de vida que tinha. Surpreendendo os dois amigos pela iniciativa, ela pediu na internet em uma lojinha de jogos, no centro da cidade, o livro de uma garotinha indiana. Contou sobre o carrapato. Ele vivia sozinho até que um dia encontrou um macaco que também vivia sozinho e depois, os dois, macaco e carrapato, descobriram um jeito de viver juntos; uma espécie de simbiose onde a interação com o outro é doída, para ser na sequência, feliz. Ela era o carrapato ou o macaco? Sofrer quase sempre deixa pouco tempo para a felicidade existir. Coitada da felicidade sem chance. E ao abandonar pensamentos de gente grande com o livro inocente ela se jogou na piscina despreocupada. Os homens a seguiram. Talvez os três transgredissem toda uma vida repleta de negação, ou talvez só quisessem se divertir; o fato é que os homens arrancaram a roupa e pularam na água. Eleanor nem ligou. Quando a noite ficou fria eles eram só superfície, como crianças. Dona mulher sai da piscina e pede a Joaquim que receba de volta o celular que ele havia dado de presente a ela, e que ela não pretendia usar nunca. Pede que leve o jardineiro também. Vocês homens só querem ficar pelados. Riu. Não era mulher discreta. Riu mais. No dia seguinte, logo cedo e ainda sem acordar direito, recebeu uma ligação da filha. Não resistiu, sentiu-se desbotar e choveu de chorar com ela. Ao telefone a filha foi solene, muita distância havia entre elas. Eleanor respondeu não, não morri. Não foi quase. Não chegou nem perto. O pai contara sobre a internação. Haveria falado de Joaquim? Acabaram a conversa emocionadas, porém sem se perdoar, o que foi bom de certo modo porque ambas não suportam ilusões, embora tenham marcado um encontro. De repente, Eleanor ficou nervosa consigo mesma. Você e seu pai desfizeram a mim em conluio. Voltavam os maus pensamentos. Arquem com esse meu sentimento retumbante e saibam que meu novo homem não debocha de mim. Contudo, aquele dia prometia ser agradável e era um belo dia de sol e contudo, o rancor foi sumindo até desaparecer todo. Em breve ela seria um avatar de si mesma. Não se reconheceu. Deixei de ser a garota má? Colocou Cartola para tocar e cantou ao abrir a porta para Joaquim e Osvaldo que chegavam. Com dedicação e muito trabalho Joaquim conseguira vender a casa do pai e ganhara um bom dinheiro no negócio, na Cidade de Flores, no meio do nada, mas junto dela. Por isso trazia uma coisa boa no peito (amor?); e ótimos vinhos para desfrutarem juntos. Seria preciso voltar a Portugal para dividir a herança com os irmãos. Eleanor fez que não com a cabeça outra vez, entortando os olhos. Mande o dinheiro e fique. Almoçaram o intocado prato da véspera e de novo brindaram. Dê-me cá um abraço de tamanduá sem me ferir, Joaquim.