• Natascha Duarte

Ops!!!

Comparar uma pessoa a um alimento é um elogio. Comida é tudo de bom. Entretanto desconfio que nos anos 1980 uma certa comida não estava com essa bola toda, e olhando para trás, é fácil constatar que a alimentação em si não recebia o merecido respeito, assim como alguns elementos eram fortemente desprestigiados, por puro preconceito. Só pode ser isso. Os tempos eram outros, é verdade, mais calmos, quase amenos. Os celulares estavam em seus primeiros dias de vida, os grupos familiares eram maioria no comando das empresas e havia menos carros nas ruas, mais dias frios e uma sensação de pouco melindre no ar. Eram dias de filmes de ação, com pessoas se destacando no trabalho sem que para isso fizessem jornadas triplas, que não acabam nem no domingo. A rotina no escritório ia até às 6 da tarde, e depois do fim do expediente, os bares ficavam lotados para o happy hour. Vários, na mesma semana. Tempos de uma outra dinâmica corporativa, onde delegar era confiar em equipes coesas, capazes de grandes feitos. Neste cenário, um shopping center começava a despontar na cidade, e uma amiga minha trabalhava lá. Os proprietários do estabelecimento chamavam atenção do mundo dos negócios, ao inaugurar a primeira expansão. Queriam tudo impecável para o grande dia. Minha amiga, recém formada, dedicada e comprometida, comandava a equipe de marketing e respondia pelas promoções e eventos, e ansiosa com o acontecimento, preparou-se também. Depois de muitas reuniões com lojistas, de ações de vendas dirigidas para a expansão, da divulgação com carro de som (mídia altamente requisitada à época), da programação de música ao vivo repassada à imprensa via Fax, depois de definir o cronograma com a equipe de segurança e etc; o evento acontecia sem imprevistos e importante. Minha amiga conta que estava bonita, com uma calça marrom e uma blusa de linha, de uma loja incrível; não do shopping em que ela trabalhava. De um lugar melhor. A gerente administrativa, e também sócia-proprietária, saiu a fuzilar a moça sem motivo, na frente dos colegas que aprontavam os últimos detalhes, momentos antes das portas serem abertas. No corredor de acesso à área de convivência, minha amiga ouviu estupefata: Vocêeeee estáaaaa parecendoooo um ovvooooo, a gerente estava com um olhar de velho oeste! Eu falo pra minha amiga esquecer. Isso tem trinta anos, mas minha amiga não esquece. Ficou traumatizada. Repete a história. Não supera nada. Sempre que nos encontramos na padaria, ela vem, sem sentar, em pé mesmo; e na praia, na praça, até quando estou lendo à noite. Você não é um ovo qualquer, eu tento ajudá-la, puxando pra cima sua autoestima. Por pelo menos quarenta e oito vezes nós duas tivemos conversas sérias a respeito. Não bastou. Eu pareço um ovo, lamento aborrecido e comprido. Ela precisa de terapia. Percebo, porque a conheço bem, que não saber de fato o que significa parecer um ovo, a atormenta mais do que ter sido comparada a um. Acontece que eu não suporto ver a dor da pessoa, se eu soubesse o que isso quer dizer... Pistas? Bem, podemos pensar no formato do ovo, na cor clarinha, na galinha amorosa que botou o ovo. Não! Vai piorar. É um enigma, estão vendo? Desistir da minha amiga eu não desisto, porém se a encontrar de ovo, ops, de novo, vou dizer a ela para procurar a ex colega; quem sabe abrindo uma conversa franca, minha amiga descubra a verdade. Não funcionando, vou me fingir de louca e gritar ovo três vezes. Aposto que ela sai correndo, envergonhada!

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