• Natascha Duarte

A galinha do galo


Ela esteve aqui novamente. Aconteceu algo grande onde ela mora pelo jeito dela. Dividimos o muro nós duas, ou seja, ela é minha vizinha e já passeou por aqui sem me importunar antes quando nem liguei, mas hoje foi diferente. Ela me pareceu deprimida e mais queimada do sol, com os pés descascados e um tanto baratinada. Sofria. Lembrou-me outras fêmeas, eu própria noutros dias, noutros dias... Ela esteve aqui novamente e foi de manhã e nunca é em vão quando ela vem, ela me ensina a me entender porque uma galinha nunca é uma coisa só, ela representa o começo, o sacrifício, o ovo que foi um dia, o ovo que colocará um dia e todas as mulheres do mundo. Sim, ela põe ovos e nós colocamos barrigas com seres enormes dentro e pelo Deus que não sofram. Os filhos das galinhas não choram como os filhos das mulheres. Ou choram? Ah, se a vida fosse correr de um lado para o outro tentando escapar das brincadeiras dos garotos e chocar ovos... Ela esteve aqui novamente e não me pareceu despreocupada. O galo sequer a procurou como da primeira vez. Ela ficou sozinha e demorou 3 mil anos para se reconstruir; eu também, e você, noutros dias, noutros dias. Pobres de nós. A não ser que uma galinha fale como é parir não saberemos se ela sente dor ou não. E pode ser que uma ou outra tenha a faculdade do falar e pode ser também que falem idiomas diferentes do nosso. Como fazer para entender os bichos? De tanto gritar na hora de parir o ovo eu suponho que a galinha sofra. Có! Có! Có! a ouvi cacarejando dias atrás. Para entender é que existe a sensibilidade, e entre a galinha e eu existe empatia de minha parte mas nunca saberei ao certo o que ela sente por mim. A ave que não voa (triste imaginar uma vida com penas e asas sem o voo inaugural ou qualquer outro) ainda estava no quintal ao entardecer e pelo muro vi seu companheiro preparando-se para subir na árvore onde dormiria. Um galo tem mais de uma galinha. A galinha não, tem só a ele, ela é consistente como uma rocha. Por ela eu estive aqui amanhã e por ela eu estarei aqui ontem, assim, errado mas com significado. Aquela coisinha preta ficou ciscando o chão até esgotar-se em amor, devota de algum Santo com certeza, e me fez pensar: se o ovo é a alma da galinha, a alma dela tem casca; se a barriga é o espírito das mulheres, nosso espírito tem nomes bonitos: João, Lucas, Matheus, Fabíola. E mais: a barriga não é barriga física apenas, é barriga quando se escolhe ter; pode ser barriga quando carregamos um sobrinho ou abrigamos um pet e é barriga quando adotamos uma criança. Tem homem que é mãe mesmo sem ser mulher e ao final, tudo são almas, meus amigos... Era quase noite quando a brincadeira deu certo e a galinha, fatigada de esperar, lançou-se acima do muro e foi ter com o galo sem saber o que seria; como tantas fêmeas, umas após outras. Buscava revivescer. Imaculada, és um presente da natureza para toda a humanidade e quando quiser, que assim seja, volte ao meu chão, ressequida, comida, estátua ou proteção.

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