• Natascha Duarte

A (mais pequena) criatura

Não achou que seria pelo celular mas acabou sendo. Deu um basta. E foi rude e foi rápido ao passo que a chuva caia lenta e sem esperança na sacada do apartamento deles; agora há pouquíssimos minutos, só dele. O apartamento alugado recebera muitos amigos no tempo em que viveram ali, vizinhos também; havia sido palco para desventuras amorosas de uns e bebedeiras de outros. Cada canto daqui tem uma história, costumavam dizer os dois rindo... No domingo de chuva Edgard pensou demais; talvez não fosse capaz do seu pior mas forçou-se a ser o outro que reside em cada um de nós e foi cruel com ela mais do que esperou ser. A mensagem de texto que ele enviou dava destaque a sua inteligência e caráter nobre, dele, não dela; foi tudo calculado para ferir, o quanto ele a amou, o quanto foi bom para ela, o quanto nunca esteve cansado, por causa dela é que valia o esforço da vida para ele. Nenhum pedido de desculpa, explicação, ou algum aplauso isolado. Ele estava com raiva. Durante a primavera ela se vestia de colorido e usava chapéu nas idas ao supermercado que fazia sozinha enquanto o homem descansava. Compras da semana, nunca comprava para o mês todo porque o dinheiro era curto. Com o clima quente e úmido Vanessa prendeu os longos cabelos num coque baixo. A vida ao lado dele havia sido desimportante desde que ela se mudara da França para o interior do Paraná e dividiam um pequeno apartamento de piso de madeira. Se fosse em Paris o local se chamaria subúrbio. No Brasil a palavra usada soava menos digna, periferia, viviam em uma inocente periferia. Voltar do supermercado no domingo de tarde mudou a vida dela para além do infinito. Ele não abriu a porta quando ela bateu esbaforida com as sacolas na mão. Ele não respondeu quando ela chamou esbaforida com as mãos ocupadas. Não atendeu o celular quando ela ligou. Vanessa demorou algum tempo para perceber do que se tratava, aquele intervalo em que não se acha conforto ou entendimento razoável; momento em que ficamos suspensos em nossas formulações abstratas esperando não comprovar o que desconfiamos estar acontecendo, como quando alguém que se ama morre ou vai embora. A mulher sentiu o estômago e “viu seu futuro no passado” como em uma linha de Fernando Pessoa. A ausência de filhos talvez o tenha ajudado a desmantelar friamente um casamento de anos mas para ela por isso seria ainda pior. As compras foram deixadas do lado de fora do apartamento e no elevador Vanessa encontrou o síndico do edifício como por acaso. Subiu com ele. Precisava de um abraço.

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