• Natascha Duarte

A recompensa


Atrás dele o chão fica coberto de irreparabilidade vermelha quando, enfim, a ambulância que ela chamara anonimamente chega ao local, ou seja, Lorena vê o homem sendo recolhido pela Urgência do Hospital e desprende-se dele como peitos caídos, ou seja, jamais teve notícias do estranho depois daquela obtusa noite e espera sinceramente que ele esteja... Lorena espera muito sinceramente que o homem esteja... Na cabeça dela isso faz todo sentido. O que aconteceu? Abstinente de paixão a mulher sai de casa para um passeio trivial. Sente algo intolerável, algo como um prenúncio de partida, mas ainda assim vai e escolhe a calçada como companhia. Mas nenhuma calçada pode dizer alguma coisa e devagar ela anda sem rumo enquanto fuma um cigarro. De dia é mulher, de noite a mulher é a lua, e Lorena busca uma insurreição que possa transformar sua vida. Perto dali há um homem que chora sem se preocupar com sua masculinidade. Chora como uma criancinha. Sua voz tremula num lamento abafado e Lorena é guiada pelo som. Muitos carros estacionados o escondem; é preciso algum esforço para desvendar o vulto através da silhueta distorcida até que ela o vê contorcido no chão. Ele parece esperar por um milagre ou talvez espere apenas por ela, a que foi com coragem buscar a vida e agora estava pelo avesso andando em círculos no quarteirão de sempre. Ela se aproxima e o vê em roupas elegantes. Senhor posso ajudar? Perturbado, o homem começa: Temos mais a sofrer quanto maior for o nosso amor, e prossegue lento numa espécie de conversa: O amor se desprende de mim como peitos que caem separados do resto do corpo. Ouça o barulho da festa. Há foguetes na festa. Mas não existe amor, só descaminho. Lorena tem uma súbita compreensão da condição do homem e mesmo fartando-se de um desfrute odiento de vê-lo sofrer, o ampara, no chão mesmo. O homem havia sido o que foi com coragem ver como era amar e se perdeu também. Tinham destinos semelhantes os dois. Lorena, então, vê que o homem está ferido, ou seja, ele conta que se cortara com o vidro da garrafa de vinho para morrer e ela não se contém, entre irônica e subterrânea pergunta: Na festa dos foguetes? Em que momento da vida se encontravam? Bem depois do meio. A brisa noturna ajuda Lorena a criar uma sensação esférica, boa; é mera ilusão, entretanto acalma sua mente e algumas horas mais tarde ela está de volta em casa. Espairecer de seus problemas desprezíveis nunca custou tanto... Isto posto, a mulher faz uma promessa, a de que usaria vermelho no próximo enterro em que comparecesse. Uma cor alegre para comemorar a vida. Ou quem sabe a morte. Eu penso que seria melhor a:

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