• Natascha Duarte

...agradeceu sem conseguir parar

, estando tão desleixada, resolveu ir ao salão de beleza na tarde de sábado depois de meses sem ir, beneficiada por uma portaria do governo do estado que definia as regras de funcionamento durante a pandemia, quando o distanciamento social se faz necessário para proteger a si próprio e aos outros: tudo o que fazemos reverbera na vida do outro, embora desconfiasse de que nem todo mundo tinha entendido essa parte, despediu-se da família e foi de carro e de máscara cruzar a pequena distância entre sua cidade e o salão, na cidade vizinha, não sem antes sentir culpa e tentar justificar sua pequena leviandade ao levar o pensamento para o mais longe que pode, e já em outro lugar, olhou o sol. Pouco tempo depois havia perdoado a vaidade cor amarelo limão, e entregou-se, meditativa, ao prazer do momento de liberdade: vai ser uma tarde e tanto, e quando cortou o cabelo sentiu-se muito bem, ao pintar pela primeira vez os fios brancos, corou de alegria, as mechas loiras que fez, coisa que jurou lá atrás não fazer nunca por pura teimosia, provocou um terremoto de emoções que veio do ventre mesmo, fez os pés e as mãos vivenciando tudo aquilo fora da realidade. Viu por lá pessoas pela primeira vez: oi, Lenora, oi, Augusta, e conversou com uma intimidade difícil de descrever, foi mais fácil do que pensava abstrair-se do contexto doloroso e de repente diminuiu de tamanho até dobrar-se sobre si mesma como em uma sessão de análise, enxergando coisas que não queria, outras que não devia, coisas das quais até se orgulhava e com respeito pensou em si mesma e nas pessoas. Todo mundo no mundo devia ter um cabelo como aquele, tratado durante 5 horas, todo mundo no mundo devia ter pais como os dela, todo mundo devia ter fé e plantar tomates, todos deviam ter um trabalho e uma casa e tomar um banho quente por dia, isso não era pedir muito, agradeceu a vida sem conseguir parar, por ter um teto, por não sentir frio no inverno disfarçado dos trópicos e por certa tranquilidade, agradeceu como se dissesse para os outros, oi, meu nome é eu e estou plena de ser. O caminho que percorrera de volta era o mesmo da ida mas pareceu diferente para ela, mais atraente, com a natureza na lateral da estrada sorrindo em ipês que anunciavam a floração, manteve abertas as janelas e a mente, o vento balançando seus novos cabelos loiros, sentiu ela, era indizível; também ela mudou, deixou de ser um tamarindo agoniado e se surpreendeu por se ver assim. Tem um negócio que ela escreveu outro dia e teve dó de ler porque sabia que ao ler a coisa toda ia embora, a não ser que lesse novamente, e por isso fez de conta que era uma Deusa e em uma imagem na nuvem que torceu para que não se dissipasse, viu um sorvete, e fez de conta que aquilo era um bom sinal. Limitar-me ei em não ser razoável dessa vez. Ela procurou parecer uma criança ao voltar pra casa.

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