• Natascha Duarte

Casal de uns


Eram 8 da noite. Jorge abriu a porta. Seja muito bem vinda. Não, não tem ninguém aqui; claro, claro, a gente pode ser o que quiser. Você disse que prefere ter-me assim então é assim que será, no silêncio e no escuro. Gosta do quarto? Ela

Francesca demonstrou uma multiplicidade de desejos ali. Foi prazeroso para ele entender o que se passava. E foi lento também. A princípio, a mulher camuflou seu desejo até que não conseguiu mais fingir e fugiu de sua impersonalidade. A presença dela no quarto cheirando a fumaça de cigarro sugeria uma ruptura de tudo o que Jorge vivenciara ao lado de outras mulheres; uma estratificação de uma mulher em mil ou talvez, a aglutinação de todas as fêmeas numa só. Aquilo foi inesperado para ele e fez despertar seus instintos mais puros. Francesca o assustava. Ele

Jorge a descobrira meses antes quando ela saía do banco perto da casa dele, e passou a segui-la de carro, muitas vezes por semana, longas horas por dia, partindo sempre do mesmo ponto e horário. Ia com ela à natação, ao trabalho, à padaria, à praça no fim de semana, onde ela lia e relia livros sem parar. Descobriu que ela tinha um cãozinho, Simão, e uma amiga, Luana. Falou com ela. Primeiro no posto de gasolina próximo ao banco. Depois também lá, na loja de conveniências, quando ela pegava uma carteira de cigarros. Ele perguntou “Como está” e ela respondeu, olhar no chão, “Com calor”. A prosa curta bastou para que os dois, meio sem jeito, sentassem para uma cerveja.

Jorge a seguiu certa vez por 15 horas, uma coisa asquerosa não tivesse sido feita com amor. Jorge a amava mais do que qualquer outra coisa. Ele jamais soube como e porquê idealizou a mulher e no tocante ao que a envolveu para além das primeiras palavras foi a simpatia de Jorge, eu suponho.

Por pura matemática dele, eles souberam seus nomes no único encontro que demorou mais do que uma fração de tempo. Francesca era solitária. “Não mais que duas cervejas, estou dirigindo” ela disse e terminaram sem que trocassem telefones ou endereços. Quanto mais passava o tempo, mais Jorge queria Francesca e mais pôde esperar por ela. Que prazer! Esperaria a vida toda. Aquilo o ajudava a existir, ele era um pouco mais vibrante e circular agora.

E continuou seguindo a mulher com paciência japonesa. Nessa altura Jorge conhecia Francesca intimamente. Sabia qual era sua cor preferida, que músicas ouvia e a que horas dormia. Sabia já onde ela morava e lia os olhos dela quando ela passava de relance no carro pela manhã, nem sempre feliz, nem sempre bonita. Em dado momento Jorge deixou de perseguir a utopia do amor e concentrou-se em si mesmo. Passou a se amar. A condição inédita o fez resgatar muito da autonomia perdida, foi como um novo vício para ele. Andou o tempo e um dia ele percebeu seu reflexo rejuvenescido no espelho do carro e sentiu-se maior. Tudo o que ele precisava era continuar olhando. Ela

Ela não se sentia completa, presumia-se um fragmento que a natureza não mais enxergava. Francesca estava derramada no lugar imóvel que lhe fora destinado há 40 anos e seguia sem se lembrar do homem do posto que desaparecera de repente. Por 2 anos ela o procurou sem o encontrar. Até o minuto em que o viu entrar em uma loja de conveniências, dessa vez por mero acaso. O posto era outro. O bairro, distante do local onde se encontravam anos atrás. Foi ela quem tomou a iniciativa.

Percebeu que ele estava mudado, mais infinito e circular e foi logo dizendo “Lembra de mim?” ao que ele respondeu “Como vai, Fran?”. Sentaram-se outra vez e outra vez beberam juntos. Encorajada por uma sensação que a fazia subir e subir, ela seduziu o homem com um olhar incomum para seus padrões. Uma grande parte de si o convidou para sair. A voz inaudível.

A noite sim, era perfeita em tons escuros que escondem e revelam as intenções humanas. Inebriada, ela aceitou o contra convite para ir até a casa de Jorge. Seu peito monstruoso coberto por veias azuis estufadas ofegou. Sua cara redonda brilhou. Algo nela floriu. E ele teve um medo mundo de perdê-la.

Como se o fato a surpreendesse, Francesca desceu do carro com graça e desenvoltura e foi assim que chegou ao bar depois de horas na casa de Jorge. Raríssimas vezes ia até o bar, mais precisamente uma vez por ano, no seu aniversário, quando tinha a sorte de encontrar novos funcionários que não teriam o trabalho de reconhecer nela uma cliente frequente e puxar conversa fiada. Francesca também dificilmente seria reconhecida por algum freguês, já que àquela hora da madrugada todos estavam caindo de bêbados. Protegida pelo anonimato planejado, Francesca fumou o derradeiro cigarro da noite no balcão, joelhos no banco ao lado, e rememorou em detalhes o homem nu deitado ao seu lado minutos mais cedo. Custou a cair em si após sua primeira noite de amor.



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