• Natascha Duarte

Clara dos Santos - a que foi Maria (parte 2 do Desastre)


Clara morava em um casarão na rua das Acácias herdado dos pais. Deixara para trás a vida impenetrável da maior cidade do país e se refugiara num canto torto do mundo. Andava de lado quando a conheci. Era um perfil em roupas rotas e olhar vago. Filha sem pai. Mãe não estava presente. Órfã, por assim dizer. Por azar também eu morava na rua e esbarramos um dia. Inevitável dizer palavras. Aos poucos ficamos amigos. Clara nunca visitara os pais no casarão, razão pela qual eu não a conhecera antes de ela se mudar. A realidade da vida parecia atenuá-la. Imaginava. Iludia-se. Corda bamba. Gostava dela em dias menos esquisitos. Ir e voltar da faculdade que eu fazia em outra cidade dava um cansaço só; nos víamos nos finais de semana quando, algumas vezes, nossa amizade nos levava para a um lugar venturoso como a felicidade, bastava uma cerveja ou duas e uma música gorda, das que povoam o dentro da gente. Entretanto, o acontecimento que me fez quase um criminoso perante minha própria cidade, de feliz não teve nada. Os fatos nos levam ao dia 23 de outubro, sábado. Muito abatida e puxando o ar Clara abriu a porta de sua casa para mim. Disse que mal havia comido, e na véspera e antevéspera. Que tinha gripe. E febre alta. Anormalada, repetia coisas, jurava me amar para sempre, desjurava, mentia que só tinha 30 anos, beijava-me a cabeça. Amaldiçoou-me também. Primeiro ri, ai quis ir embora, ai me acalmei e só então, prestei atenção em minha amiga. Ativada por alguma força secreta ela me fez sentar e esperar para ouvir e ver. Fantasmas. Algo recente. Mas que existiam, existiam. Muito me esforcei para suspender os pensamentos e me concentrar. Conseguir viajar para dentro de mim não fui; para o mundo escondido (?) não ia. A certa altura adormeci. Ouvi então Clara dizer: ... passados milhões de anos ainda me sinto mal. Continuou abundada na intenção e proclamou: Uma mulher daria 100 pistas sobre si mesma e ainda não a desvendaria, porque ela é misteriosa e bela, ela sou eu. Algo assim... A essa hora existir não foi nada corriqueiro. Eu, de volta a mim mesmo, vi surgir no fundo da sala uma imagem. Envolto por uma membrana azul profundo nadava um baiacu como que vestido para um baile. Comovida, Maria notou que ele inflava e esvaziava. Ela chorou. Engolir ar ou água para dobrar de tamanho é uma defesa do peixe contra possíveis predadores (e fantasmas). Vi quando os dois flutuaram até o teto, braços dados (?), emaranhados um no outro para proteção de ambos – o tempo parou. Adormeci uma vez mais. Quando dei por mim estava amarrado a uma cadeira e todo molhado. Maria havia desaparecido. Ao Delegado da polícia, de nome Juarez, contei o que ouvi e vi. A corda em meus punhos ainda não entendi. O povo da cidade, ignorante, acusou-me de bruxaria, de ser um assassino, péssimo amigo, invalidando minha permanência na cidade em que nasci. Arquivado o caso na polícia por falta de toda prova, em alguns meses me mudei de lá. Nunca mais vi Maria.

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