• Natascha Duarte

Coisificando o amanhã

Uma amiga minha fez uma lista de resoluções de Ano Novo cheia de coisas e me confidenciou item por item, meio sem graça, como se pecasse; contradizendo toda uma cultura cristã de gratidão pelo que já se tem, e em oposição a essência dela mesma, que nunca foi materialista. Entregou-se a mim como quem procura um cúmplice, alguém para a defender se for o caso; alguém que possa declarar publicamente que ela é boa gente e se importa com os outros. Ela se sente culpada por querer. Eu a conheço e sei que dentro daquele peito bate um coração de verdade, cheio de piedade, empatia e apreço pelo próximo; sei que ela é uma pequena parte de algo importante e por isso aceitei apoiá-la cegamente em suas vontades. Mas no meu íntimo havia uma pitada de ressentimento com tudo aquilo. Onde está o outro na sua lista de prioridades? Não perguntei. É fato que há concentração de renda no mundo todo e por isso existem pobres sem casa ou comida. É fato também que existem ricos que empregam trabalhadores e mudam realidades sociais. Querem saber o crime da minha amiga? Para o ano que começa seria bom um carro novo, uma outra tv, um mar de coisas lindas no armário, vinhos sempre prontos na adega que por sinal ela não tem mas precisa, reforma na casa e nela própria, ampliação de fotografias de quase uma década, uma poltrona, um lustre e aquecimento solar, como não?, amiga natureba é outra coisa. Mesmo que ela não execute tudo de uma vez, ela disse que elencar em uma lista foi importante. Pregou a lista dentro do guarda-roupa. Óbvio que ela espera que o ano novo seja repleto de bem estar e saúde e amor e paz e entendimento e partilha como toda pessoa de bem deseja, porém para ela este ano é de conquistas. Espera aprender a falar sobre isso sem sentir remorso, e convenhamos, ela tem o direito de querer o que quiser. Conversamos sobre como a ideia de organizar o tempo em um calendário de 12 meses começou e ela citou os romanos. Remotamente, segundo minha amiga, o fim do ano significava uma oportunidade para os cansados soldados do império encolherem a labuta diária quando magicamente, tudo se renovava. Eu acho que ela inventou essa parte. Simples como respirar é a mania do homem de recomeçar, sempre disposto, mesmo depois de uma guerra, mesmo antes dos romanos. Eu, ainda brava com ela por dentro, disse acreditar que o calendário foi inventado para nos enganar, servindo para nos iludir de que o amanhã pode ser melhor que o agora, e nisso reside uma falcatrua, uma conspiração filosófica para nos pôr a trabalhar como escravos imaginando algo maior, que pode não vir nunca. Não serve somente para organizar os dias de acordo com o sol ou a lua. Filosofamos. Nos desejos da minha amiga que ouvi serenamente sem criticar, teve detalhes de lugares que ela quer conhecer, e até de sapatos que ela viu numa vitrine de loja, mas quem sou eu para julgar os desejos de alguém, não vivo presa em uma ideia fixa e procuro ampliar minha cabeça. Depois de pensar que minha amiga é vazia e egoísta, eu passei surpreendentemente a achar ela merecedora de cada um dos itens da lista, afinal dá um duro danado na vida e no fim do nosso colóquio eu já pretendia seguir o exemplo dela, e me preparar para a abundância que a vida tem reservado para todos nós. Somos duas bobas. Bobas sim. Bestas jamais...

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