• Natascha Duarte

Conto Brasileiro

Anos atrás um menino de nome Silva atravessou o país vindo do Norte. O comboio tinha 3 caminhões que burlaram as estradas principais até um vilarejo no centro-oeste brasileiro. O menino na carroceria com os pais sacudia, sacudia... Chegaram 7 dias depois. A cidade era pequena. Ficaram. O Silva cresceu e se multiplicou. 20 anos depois tem 2 filhos, um deles com deficiência cognitiva. Outro dia o Silva foi ter exatamente onde eu trabalho, onde nos conhecemos. Seu primeiro nome é Sérgio e ele pode ser preso a qualquer momento. Sérgio pinta, marcenera e pedrera (esses últimos substantivos não deram bons verbos). Ele é pedreiro e marceneiro, melhor dizendo, e pinta. Decentíssimo, o Sérgio Silva é a essência do Brasil. Já o Abrantes nasceu de ventre vaidoso e banhado em cremes. O menino daria um bom pai não fosse a índole de família, que se herda, tem jeito não. 2 filhos, um também especial. Abrantes deve pensão alimentícia para os filhos há 15 anos, idade do mais velho. Ou seja, tem tudo e não é ninguém. É preciso ser o outro para ser alguém, rapaz! Ah! esqueci de dizer que as coincidências continuam para além do número de filhos, do filho especial e dos nomes; os dois residem na minha cidade; mas o rico eu não conheço. Só ouço falar mal. O pai dele é importante na Vila, presidente de partido e… Abrantes é o Brasil que não deu certo. A Justiça vez ou outra vai atrás dele cobrar a dívida, e não sei como, falha toda vez. Deixemos a comparação. Vamos aos acontecimentos. O nosso Silva, pobre e preto, acorda duas, três vezes por noite, quando não mais, para mudar de posição no catre precário onde dorme. Não sobra nem para o colchão. Tudo o que faz manda para os filhos. Fez filhos sem pesar muito as consequências e sem se dar conta viu a pensão atrasar. Já pensou em se matar umas duas mil vezes. A sorte dele, ou minha por ganhar um amigo, é que aqui na cidade onde sou oficial de Cartório eu precisei ajeitar alguém para fazer uns reparos na recepção, e foi aí que o Silva entrou, indicado por um colega de trabalho meu, o Osvaldo. Trouxe um rádio de pilhas, um pão com manteiga para o almoço e uma garrafa vermelha de café que ia tomando meio frio. Juro que o vi cantando uma música com lágrimas nos olhos enquanto trabalhava. Eu fico péssimo, fico péssimo com isso, ressentido com meus supérfluos, aqueles que se derramam sobre mim por uns instantes como o efeito de uma droga e vão embora deixando uma ferida exposta e purulenta. Estou incomodado comigo e meu regozijo com vinhos chilenos e novas gravatas. Para acudir ao outro e a mim, como “um dos representantes de nós”, fui planear estragar eu mesmo mais algumas coisas no Cartório, para o Silva, de novo, poder consertar. Foi quando meu finado pai me apareceu num lampejo de desmorte e me lembrou, falando ao meu ouvido, da minha história desde o berço. Somos gente decente! E como somos. O mais certo era falar com todo o povo da Vila do Rosário... Falei eu. Falaram eles. E ouvimos “a gente precisa ajudar! a gente precisa ajudar!”. As pessoas o chamaram para diárias e mais diárias e o rapaz, com o dinheiro que fez, pagou a pensão atrasada e comprou um colchão novo. Eu mesmo o levei à loja. Agora quem faz planos é ele, de trazer o filho de 10 anos para passar férias em dezembro. Já o Abrantes, branco e bem nascido, não vê crescer sua responsabilidade nem diante da ira de Deus. Podres de rico não vão presos! deve pensar. Pobre Abrantes, é o mínimo que poderia ser e a dessemelhança entre os dois é a cara dos homens. Quanta satisfação teria seu espírito com a visita dos seus filhos? O que dizer de férias inteiras passadas ao lado da meninada, aquela correria sob o sol, o banho salgado na água do mar? Comprar os materiais escolares no começo do ano, com renovada energia, escolher juntos as cores dos cadernos, os lápis de cera, o personagem da mochila; e então, ver os sinais primeiros do amor chegando ao coração do filho adolescente? Cuidado, diria a ele se eu pudesse, quem respira dinheiro acaba enfermo e só!


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