• Natascha Duarte

Conto tudo o que sei sobre Laurita?

Ela deixou de se arrumar embora gostasse de se sentir bonita. Via des-necessidade disso por hora. O agora era de um jeito tão diferente de tudo que ela conheceu, que por pouco deixou de respirar, tamanha dificuldade em perceber-se inapta a lidar com seu mundo profundo. A nulidade de si mesma a confrontava com a invalidez de seu existir; um confronto de iguais. E foi assim, cheia de culpa e muda de si mesma que voltou à igreja depois de 15 anos para penitenciar-se da vida que levava. Iria todos os domingos a partir dali. Sem faltar. Nada a impediria. Era uma promessa. Naquele domingo chegou sem atraso e sentou na frente, atenta. Cantou na sua cabeça. Sem se arrumar ou passar batom procurou na crueza da sua imagem uma passagem para a liberdade. Descobriu o bom de ser invisível. Logo ela, antes tão exuberante. As filhas foram também, as três. Era a missa de resgate da cristandade, não podiam faltar. Mas as meninas não estavam lá de verdade. Meninas só pensam em sexo. Seriam as filhas, instintivamente, como a mãe? Isso de falta de pudor se herda!? Laurita estava carola. Mas não foi sempre assim. Houve um tempo em que ia ao culto para expressar uma fé genuína. Hoje era um enorme retalho. O Padre entrou e com ele os coroinhas e ministros distraindo sua concentração na conversa íntima que tinha com Deus. O hino foi entoado pelos presentes e o eco das vozes engoliu a construção centenária, situada na praça principal, e que naquele verão estava inimaginativa. Ali, de joelhos, prometeu que voltaria o que havia sobrado de si mesma para Jesus, e rezaria nos domingos seguintes por quanto tempo sua vida fosse terrena. Laurita era uma santa. Mas não foi sempre assim. Houve um tempo em que era deboche. Teve amantes e casos fortuitos durante o casamento sem qualquer senso de justiça. Voltava seu seio bem feito para homens totalitários que desfiguravam seu papel de mulher e de amante, e quanto pior era tratada por eles, melhor se sentia. Não dava a mínima para o marido quando, impura, voltava para casa leve como uma pluma. Era metamorfose, vagante, contraditória. Em família desempenhava o papel de mãe amorosa envolta em afazeres domésticos e rotina imutável; o que compensava em tardes sem julgamento com homens que mal conhecia. Mas tinha fé que para devassidão do corpo e da alma achava-se remédio. Para falta de felicidade não. Isso ela não podia aguentar. A pessoa morre de falta de felicidade e dignidade ela tinha de sobra. Frequentava o culto das segundas-feiras à noite com fé redobrada e orava de olhos fechados, tamanho fervor. Era a última a sair. Laurita fazia valer cada centavo que pagava às babas das crianças para estar com os amantes em uma lógica perversa, quanto mais caras as diárias, mais liberdade oferecia aos parceiros. O Padre do domingo em questão, portanto, dizia coisas menos graves que o Pastor de outrora, e ela conseguiu esvaziar um pouco o coração do remorso inaugurado às vésperas de completar cinquenta anos. Mas não foi sempre assim. Laurita nasceu pobre na periferia de uma cidade sem futuro, e iria morrer do mesmo jeito. Durante a infância, previsível para crianças como ela, conviveu com a ausência dos pais em um lar desajustado, ainda que não deixasse nenhuma dificuldade a definir. Era orgulho e era vontade. Por não ter o que perder, começou a roubar cedo. As sandálias Havaianas que conseguia pegar sorrateiramente do supermercado do bairro, ela vendia barato às amigas. Disso não se arrependia, fizera o que tinha de ser feito para conseguir comprar uma bicicleta aos 10 anos. Laurita mal frequentava a escola mas brincava com as palavras com certa propriedade. Não era ladra, e sim uma “tiradeira”. Não era pobre. Dizia-se “norica” com biquinho e sotaque inglês, divertindo as amigas. “Combatimento” ela usava para descrever sua essência. E preta não era. Nunca foi. Laurita preferia “negona” mesmo (eu sou a melhor, dizia...). Com o tempo os furtos foram ganhando em profissionalismo e evoluíram, restabelecendo seu lugar no mundo, uma apropriação que a fazia sentir-se segura. Pegava o que queria, presunto importado, roupa, travesseiro, esmalte e até dinheiro. Uma personagem fora da curva é o que ela é. Depois dos roubos que a acompanharam até a adolescência, começou a ver um novo sentido na vida deitando-se com qualquer um. Descobriu na sexualidade, de uma naturalidade absurda para ela, algo poderoso como um dom. Foi para roubar e seduzir que Deus havia criado aquele negror. O roubo foi sua primeira paixão, o sexo sua maior alegria e como gostava de passar suas horas livres. Conheceu o marido anos mais tarde, no curso técnico de cabeleireira que fez sem pagar inscrição, porque havia dormido com o gerente do salão. Augusto, um sem dinheiro, foi cortar o cabelo na faixa em dia de treinamento das aprendizes; acabou se apaixonando por uma delas. Laurita casou, teve filhos, abandonou os roubos, os pastores e os padres, e com competência de dar inveja aos invejosos tocou um pequeno negócio de cursos para cabeleireiras. A vida dupla, porém, não sabia como abandonar. Talvez Deus pudesse ajudar. A consciência teria matado Laurita não fosse a missa e o perceber-se desconfortavelmente delicada na presença Dele. Respeitemos! Jamais houve alguém como ela.

28 visualizações0 comentário