• Natascha Duarte

Desastre (O conto que não existiu)

Esse é seguramente o mais pobre dos meus contos. Não que os outros sejam importantes ou muitos, mas possuem pequenas qualidades, ao passo que esse só tem defeitos. Aconteceu com Maria. Não a gestava. A imaginei drogada, carola, uma florzinha. Primeiro puta nova, depois velha, agora um menino. Troquei altiva por trêmula como que sombria. Rica de verdade, rica de nada, pobre de marré, marré, marré. Casa na cidade, no campo, casa no hotel; ora tomando chá de cidreira, ora do santo daime, macumbeira. Fiquei perdida em minha ruminação por dias. Desisti absurdamente de a fazer conversar com um padre. A estrutura também deu um trabalho infernal. Respeitei primeiro a ordem cronológica dos fatos. Depois desrespeitei o que não merece respeito e coloquei o meio no fim, o fim no começo. Relimpei palavras, mexi na gramática, mudei vírgulas de lugar, experimentei o travessão do qual sou avessa. Narrei demais num palavrório sem fim. Cortei, cortei, cortei até que sangrei. Perdi Maria. Ao tentar resgatá-la imitei toscamente um Mestre. Busquei em vão inspiração em outro, e por algum tempo ela foi uma doida varrida. Por algum tempo uma intelectual. Ganhou um amigo, perdeu um grande amor, viu um peixe nadando na sala de estar. A narradora dormia com ela embolada e acordava enrascada nela, só que eu no escuro. Maria já foi Ana (ininédito), Sofia (ininédito também), Mário (esse nome é pra gente grande) e uma pedra. Judiei dela, a poupei, tive pena, a condenei. Uma coisa horrível. Que diabos de mulher! Com o fracasso de minha empresa, apaguei da tela e do meu coração a invertebrada. Recostei na rede e esperei deitada. Não a tirei da cabeça nem ao pesquisar as civilizações pré-colombianas e escutar no celular a história do rei Salomão. Ouvir Almir Sater e a linda canção Kikiô não fez a megera se aproximar (bem aí, com a música Kikiô, imaginei Maria uma índia e grande líder de seu povo. Seu nome seria Açucena, flor branca). Dediquei-me enormemente, leitor, mas muito tempo é tempo demais. Maria não existe. A que nunca apareceu sumiu e quer saber, talvez assim seja mais fácil de a gente se salvar. Escrever o conto invisível é impossível! O chamaria “Desastre” mas não o escrevi. Tem uma música que me ilumina mas não consigo ouvi-la sem morrer, Clara (esse nome me parece melhor). Você me entende?

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