• Natascha Duarte

Desvida


Amor yo sé que quieres llevarte mi ilusión

Amor yo sé que puedes también llevarte mi alma

Bola de Neve



A primeira jabuticaba uniu Lorena ao que só as mulheres sentem. Foi A Jabuticaba! como se aquilo fosse parte de sua natureza. Quatros, cinco frutas depois, e o espocar como fogos de artifício, pou, pou. Até a jabuticaba a subjugar. “Ela pensa que é meu marido”, Lorena adorava frases de efeito. O dia ia lindo e... “Eu te amo!”, disse virando-se para ele. “Como podemos ser tão diferentes?”, perguntou o marido. “Não éramos. Foi você que começou”, disse a mulher. Lorena e Gustavo estavam no sítio com um casal de amigos há alguns dias. Ao pé de uma árvore centenária os quatro conversavam em mais um encontro que se arrastava lento demais. Lorena teve vontade de pegar a estrada e correr dali e perguntou baixinho à árvore se o coração vai onde formos ou se fica fiel ao lugar onde reside. Fiel às paredes que testemunham nossa miséria. A árvore não respondeu. Ela e o marido mantinham a casa há 40 anos. Era uma construção encravada no pé de um morro, num povoado esquecido pelo Deus e calmo como um sonho sem graça. Eles tinham uma casa na praia também, coisa finíssima, mas para lá a problemática Lorena jamais convidara Joyce e João. Os quatro amigos seguiam comendo jabuticabas com uma sofreguidão estranha. De um jeito infantil, Lorena inventou um modo de prever o futuro nos bigodes do seu cãozinho, own own e começou a agir como uma personagem. “Você não me abandone nunquinhaaa”, disse enroscando seu rosto no dele enquanto o pegava do chão de cimento quebrado e gasto pelo tempo. O cachorro branco de pelo enrolado estava preto de uma sujeira sadia, e fez Lorena vislumbrar uma saída? Ela teve uma ideia. “Vou ficar aqui para sempre'', disse. “Desejo que compreendam e aceitem”. Primeiro me vingo, depois perdoo, pensou intimamente, com raiva do mundo. “Ela quer as jabuticabas só pra ela”, Gustavo acudiu. “Ama as frutas mais que as pessoas”, disse Joyce, sinceramente comovida com a condição da outra. O propósito do grupo ao se reunir no sítio foi renovar Lorena. Esperavam um ambiente agradável que a deixasse com mais energia e bom humor. Porém, ao sair de seus apartamentos entulhados de coisas desnecessárias não conseguiram transcender? em meio ao nada, e o pequeno grupo rapidamente desintegrou-se em conflitos. As conversas sobre a vida, filhos e trabalho ou filmes, livros e música ou arte, vinhos, futebol e política deixavam Lorena com vontade de vomitar. Aquilo sim, era uma sentença de morte verdadeira. Lorena fecha os olhos e se afasta de mais uma discussão imbecil. Faz isso toda vez que a conversa com alguém fica difícil. Quantas concessões teve de fazer na vida só para não sentir a grande pedra que trazia na alma se movimentar. Sua barriga estufa de tanto comer e ela recita poemas, canta músicas que ninguém conhece, atua. “Grandes merdas!, qual é mesmo o nome daquele escritor?, aquele livro dele que eu gosto tanto?”, olhou para a amiga. Lorena havia tido uma crise semanas antes que a fizera cair dura no chão e ter espasmos violentos durante um longo tempo. Ninguém apareceu para socorrer a mulher que ficou compondo um drama de desespero e paixão em uma calçada suja do centro da cidade. No hospital, quando chegou lá levada por um transeunte qualquer, foram precisos 16 pontos no queixo e 10 dias de internação particular. Uma doença incurável só traz dor e despesa à família. Lorena não era uma pessoa fácil. Atriz de teatro no auge do teatro brasileiro a mulher viajara o mundo ao lado de grandes nomes das artes. Mais de uma vez o casal fora convidado para a casa de gente famosa e políticos de carreira. Outros de ocasião. “Enormes merdas”, diria o tal escritor. Em frente a majestosa árvore de jabuticabas o filho único liga para ela, e ali na frente de todos, a mãe trata com ele de detalhes impalatáveis com uma naturalidade assustadora. “Você fique com as cadeiras de madeira, o baú italiano e a cristaleira que eram de sua avó. E com o lote, o apartamento em São Paulo, a conta no banco e a casa no Guarujá. Todo o resto que é meu e de seu pai será seu… Cuide do velho!”. Ao entardecer as jabuticabas eram mais pretas. Muito mais escuras. “Essas são as maiores jabuticabas do mundo”, disse Lorena voltando a cabeça para cima, para o azul que virava marinho. “Grandes da cor da noite”, o marido aproximou-se dela, “pretas do tamanho de laranjas''. Um trocadilho a que ela não deu atenção. Não havendo coisa melhor para fazer, Lorena pôs várias jabuticabas na boca de uma só vez, engolindo até as sementes, e teve uma sensação de se apropriar do vento. De pesada foi a leve numa caricatura de si mesma. Tem uma história de um cara que se casou cedo demais com uma garota que daria um bom livro, não que isso seja importante para alguém. “Quero morrer sozinha”, disse ela. O marido, que até então se continha e quase não falava, ficou enfurecido. “És cruel! Alimentar-se da própria dor é infringir dor às pessoas. Você não é a única que sofre nesse mundo de meu Deus”. “Uma miserável que se preze não tem esperanças”, devolveu Lorena. “Deixem-me!”. Imediatamente Gustavo, Joyce e João voltaram para a cidade. Lorena permaneceu sozinha no sítio. Passava tempo demais com a árvore do lado, grudada e temente à ela. Como se estivesse em turnê sentia tudo o que era. Sentia frio, sentia medo, fome, sentiu-se livre, coisa rara. Lorena afogou-se de sua pessoa, sem testemunhas. O corpo sucumbiu enquanto ela comia o desgosto de uma vida transformado em jabuticabas. Cada pedacinho dela protegido pela entidade repleta de frutos. O cachorro estava magro quando filho e marido chegaram ao sítio, transtornados, para ter notícias da mulher que não atendia ao celular. Agora todo dia é sábado para ela. E todo dia é dia de jabuticaba. Talvez menina tomando sorvete Lorena tenha sido tão feliz. Não! Não! Artista, no palco. Lorena ouviu a canção do pianista cubano de novo. No reino insondável só tocam música boa. Nem chora mais. Dormindo, voltou a ser atriz.


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