• Natascha Duarte

Do contrário


Aconteceu numa manhã nublada de domingo. Da rua os vizinhos ouviram-na aos berros. A mulher disse mais tarde à polícia que primeiro sentiu um tremor vindo do fundo do seu jardim enquanto passava o café. O ruído pareceu água escoando pelo ralo, um sopro do lado avesso, tipo sucção, sabe? Aí avistou-o. Todos ali tinham ciência da existência dos bichos na reserva próxima, bugios, talvez várias famílias, mas nunca os tinham visto ainda. No dia em questão Amália assistia, no celular, a missa das 11 horas de um padre progressista, e bem por isso é que gostava dele. Segurou a respiração para não perder a hora da benção nem o macaco de vista. O exemplar do símio foi em sua direção fazendo as folhas secas esparramadas pelo chão estalarem uma a uma. Tec. Tec. Olhar fixo nela. Amália sentiu de longe o suor molhado do bicho. No ar pairava parada uma brisa fresca e vermelha, muito viva. Seria prelúdio de chuva ou os odores misturavam-se? Ao mesmo tempo em que fazia a reflexão proposta pelo padre - os dogmas da Igreja contêm a verdade da fé - via o macaco se aproximar por entre a nuvem quente do café que subia embaçando a janela. Os olhos do macaco brilhavam uma luz oblíqua e alaranjada e Amém, disse ela voltando-se para o ritual, os males da terra jamais me acompanharão. De repente o perdeu da retina. Era maior que um tatu, do tamanho quase de um cachorro, deve ter se escondido atrás de uma árvore. Paralisada no centro da cozinha Amália viu seu passado voltar. Havia sido a “mãe mamão” dos filhos pequenos que agora afastavam-se dela lentamente, um a um, fazendo-a murchar nos seus muitos vestidos soltos. Nada tinha da fruta ovalada e cheia de sementes de antes. Sentiu medo do mundo quebrado lá fora. Garrafa cheia de café, tomou um gole! uma xícara! depois, sem sair de frente da pia, tomou um copo inteiro do líquido quente e viscoso! Olhou para o quintal e nada do macaco desesconder-se. Dias seguidos Amália esperou por ele como pela volta de Maria, a mãe de Deus. Que talvez fosse bonito ser levada da vida pelas mordidas de um bugio, ah seria! De tanto falar no macaco deixou todos na pequena cidade preocupados. Sua curiosidade inicial foi sendo substituída por uma coisa que ela mesma inventou, uma desculpa: aí já não conseguia dizer mais nada: nem ver os amigos: ou sair de casa. Ninguém sabe ao certo o que a mulher tinha na cabeça, mas Amália cultivara um elo secreto com o primata. Não importava mais a promessa da palavra de Deus. A bebida preta ela substituiu por outra mais forte, um derivado de cana de açúcar como pinga, mas com sabor de frutas. Até que num dia, imerecido por ela, o macaco voltou e dessa vez chegou perto o bastante para que Amália se abaixasse do tamanho dele e o olhasse de frente. Cada pedaço do corpo dela permaneceu convicto de uma nulidade branda, e sem demora, a mulher entregou-se ao bicho como na Evolução, só que do contrário. Fundiu-se com ele com a coragem súbita dos que sentem pena de si mesmos. Viraram um sopro os dois, um único corpo, uma única boca aberta e cheia de dentes. Deslizam pela vida, dizem os amigos. Em certos domingos conseguimos ouvi-la com o bando. A vi saltando os galhos das árvores, a cara era dela, o corpo do macaco, resumem os vizinhos com urgência. Tenho fé de que mamãe volte um dia. Blasfêmia, blasfêmia, diria o padre famoso.

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