• Natascha Duarte

Doce de mamão, rapadura e pinga



Nossos novos amigos estão na casa dos 80 anos. O amigo Sebastião tem 89, e foi dele a visita que recebemos domingo pela manhã. Tomamos cerveja e falamos sobre a vida, religião, filhos e cachaça. Meu marido e ele aprontam um lote da branquinha, especialíssimo, que só chegará aos que realmente apreciam a bebida, garantem os dois. Para fazer cachaça, Sebastião precisa moer a cana, fermentar com milho, esperar o tempo certo para alambicar o caldo, e a arte do destilado acontece. Saborear o experimento é engraçado, falamos com ele pelo muro que divide nossas propriedades, quando ele passa para o lado de cá um copinho, com o líquido transparente; o meu marido é o provador oficial, eu fico só vendo a empatia que existe entre eles. Já a rapadura requer a fervura do caldo, em um tacho de cobre que fica no chão, e cuidado amigo Sebastião, muito cuidado com a lida ao redor do utensílio. Dá alegria ver a altura do fogo, o cheiro açucarado, até a fumaça. O falante Sebastião era amigo do meu pai, e é simples por demais, como a gente. Ao lado dele, qualquer irritação nossa, passa. Produtivo aos 89 anos, ele tem um quintal que dá renda extra à família. Fora a cachaça e a rapadura artesanais, produzidas em pequena quantidade, jabuticabas são muito procuradas por grupos que vêm de longe para passar o dia, e peixes podem ser pescados no tanque e levados para a janta. Sempre que eu passo em frente à casa dele, ele está lá, trabalhando com afinco. Pela disposição do Sebastião, ele é o mais rico dos homens. É preferível ser como ele. No entardecer, quando passei de carro outro dia, vi pelo portão aberto ele apertar mamão ralado, para fazer doce. Muitos devem concordar comigo que isso é uma coisa genuína. Pode haver algo mais significativo do que fazer doce de mamão? Não para o amigo Sebastião. Neste fim de semana, recebemos também a visita de outra vizinha, Carmelita, 80 anos e tão boa de proza, quanto foi a festa que ela ganhou de presente dos filhos, no aniversário. Veio cantador de moda de viola, de Pontalina. Vocês não moravam aqui ainda, não é?, ela quis saber. Nos aproximamos depois da festa. Perdemos feio. Dona Carmelita contou que a comemoração reuniu 200 convidados ilustres da cidade, mas ainda mais importantes, em seu coração. As amigas dançaram de saias rodadas, para o salão ficar bonito e Carmelita ganhou tantos presentes, que a cama ficou lotada de embrulhos coloridos. Sabonetes, manta de dormir, 4 pares de sapatos, vestidos, leitoa, e até 1 barril de chope, dos bons! Aquela senhora parece um anjo e procura um jeito amoroso de estar com as pessoas que a rodeiam, multiplicando o amor que recebeu na tentativa de ser um pouco melhor, ser real e de verdade. Foi assim que ela esteve aqui, amorosa, e com uma caderneta nas mãos, para pegar receitas com outra amiga mais adiante na rua. Mas não se iludam, ninguém passa a perna na dona, que vez ou outra, empunha um cabo de pau em frente à sua casa, andando de um lado para o outro, a botar medo e respeito. Carmelita é mulher que sabe se defender, sozinha cria um neto, não arreda dos desafios da vida, e ainda sonha. Conviver com gente assim me faz acreditar que somos bons por natureza. Não coloquem a culpa em mim, sou romântica, pacifista, otimista e estou trabalhando a minha consciência. Eu sei que no fim, tudo se trata do que podemos fazer pelos outros, não é mesmo? Para uns é mais fácil entender que a vida é só um pedaço de algo maior, e que aqui recebemos de volta tudo o que fazemos. Para outros, nem a idade ensina. Dessa maneira, suponho que Sebastião e Carmelita de tão felizes, fizeram bem a sua parte.

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