• Natascha Duarte

Esquece o governo!

Tenho preferido falar sobre cinema do que sobre política. Pelo menos não brigo com ninguém e não brigam comigo. O debate político muito me interessa, faço meus apontamentos singelos nas redes, como posso, e como cidadã. Falo sobre política em família com meus filhos e marido. Para nós política é um ato diário, vai desde como você trata o porteiro do prédio até como você quer que ele crie os filhos dele. Política é antes de tudo, o outro. Conversar com amigos sempre que os encontro é um hábito, com eles avento possibilidades de um mundo melhor. Cresci ouvindo meu pai e minha mãe e essa interação me moldou, eu sou como eles. Vou continuar discutindo ideias sempre que tiver oportunidade e vou ouvir os mais de dois lados existentes em qualquer conflito, embora em uma outra frequência. Tanto nas redes, como cá no mundo real, estou menos alta ao me manifestar. É humanamente corrosivo diante de tal polarização ideológica ficar discutindo o sexo dos anjos. Vivemos em um estado de coisas que desagrega e confunde e esse enfrentamento sem fim, mina meus sonhos aos poucos, porque eu me importo com o país e suas políticas sociais. E como política é ação, eu sofro ao ver as ações travadas por dependerem dos governos, e sei que é ai que mora o perigo. Para os que não querem mudar o mundo, falar sobre as mazelas do sistema é tão à toa, que tanto faz a imobilidade das coisas, políticos incluídos. Os poucos exemplos edificantes na política brasileira, fazem sobrar motivos para desanimar, então, falemos de outras coisas com a mesma dedicação e entusiasmo. De verdade? Estou no meu momento idiota, esperando perder a força do embate. Sem gritos ou paixão. Não bato na mesa para defender o nome de ninguém. Não mais. Quero deixar o campo de batalhas para os jovens. É preciso um corpo jovem para receber os coices que vêm das togas e ainda sair às ruas com cartazes. Política é coisa feia! Um amigo meu, médico, me disse faz algum tempo: esquece o governo. Eu estava conversando com ele enfaticamente, como sempre estou em se tratando de política; e ele vinha outra vez: esquece o governo. Como num bordão. Demorei três anos para entender e só agora a ficha caiu. Ele queria dizer o quê? O paradigma de achar que está tudo errado, e que nada muda nunca, e que a culpa é do governo, isso enlouquece as pessoas. Esquece o governo. E segue. Entendi agora, amigo. Basta eu ser direita aqui, não é mesmo? Ser direita é um gesto político maior do que o maior dos discursos. Então, falemos sobre outras coisas também, filmes, lugares, livros, possibilidades e desafios e sigamos com nossas vidas sendo direitos. Ah, valem filmes políticos, tá?, os meus prediletos (risos). Aprendo sobre política nos filmes assim como nos livros, e no meu quadrado particular, um filme em especial, chamou minha atenção. American Son, em cartaz na Netflix é um filme denso, precisei fazer várias pausas, mas fiquei na sala grudada na tela, esperando o desfecho da história, guardado para os últimos instantes. O desempenho incomum da atriz, que faz uma mãe à procura do filho de 18 anos, desaparecido, é algo que nos prende ao sofá. Há também as atuações do pai, do policial subalterno, e do detetive, que convencem. Acabamos engolidos pelo enredo que aborda a questão multirracial americana. São só eles os personagens, os quatro. A ante sala da delegacia é o único cenário. Porém, o tema é gigante e abre reflexão para o quanto todos os povos do mundo sofrem ao confrontar suas próprias dores. O filme é intenso como a vida, precisa calma e certa frieza para chegar ao fim. Outro título excelente é Jadotville, também no aplicativo (com o Cinquenta Tons, ele é ótimo ator, não?). O filme conta a passagem do exército da Irlanda em uma missão de paz pelo Congo, conturbado por questões sociais, em 1961. Missão especial, tutelada pela recém criada ONU, que se atrapalha inteira ali. Não dá pra acreditar no que acontece depois. Mais político impossível! Dois bons exemplos do quanto o cinema pode nos ajudar a conhecer o mundo.

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