• Natascha Duarte

Henrique

Meu Pai sempre teve predileção por pessoas simples. O Seu Joaquim era uma dessas pessoas. Solitário, vivia descalço a cuidar da terra de um comandante da Vasp que morava em São Paulo. O comandante era importante. O Seu Joaquim não. Tinha as unhas dos pés enormes e era marrom de terra e poeira. Meu Pai e o Seu Joaquim ficaram amigos e lá parávamos toda vez que nosso caminho até a fazendinha de Bela Vista passava pelas terras do comandante. O homem singelo nos aguardava com um sorriso de fé. Descíamos do carro para a prosa e café que meus pais bebiam com alegria. Pequenos, eu e meus irmãos pensávamos um tanto assustados, naquilo tudo. Certa vez o homem tinha feito doce e comemos com ele. Ao chegar e ir embora apertávamos a sua mão. “Ele não é diferente de vocês”, meu Pai dizia. Não mesmo, Pai! Neste Natal não me maquiei ou vesti roupa bonita. Deixei antever imperfeições sob a saia curta, despreocupada. Quero ser o que sou. Passei a noite sem a felicidade de sempre e para sempre nossos Natais serão incompletos. Não temos mais à cabeceira da mesa quem tanto nos influenciou e tudo sabia. Ficamos sem ter o que falar e jantamos um prato qualquer. Rezamos. Sinto-me em partes. Algo entre o que fui e o que serei. À noite não consegui dormir. A música alta na rua me emocionou. E os foguetes... Muitos foguetes até amanhecer. Achei bonito. Parabéns Maria. Jesus é o nosso Salvador. Em vários momentos eu soube que você partiria, Pai. E agora meus dias não terão mais cheiro de fruta, castanha ou nozes. As conversas e seu olhar impaciente ao me falar sobre o mundo se foram. Éramos parte um do outro. Melhor, somos um só. Um tanto fortes, outro tanto necessitados e carentes. A vida nos deu tudo. Lembro da casa da R 13 cheia de gente. Aos sábados a campainha não parava. Osvaldo, Péricles, Celestina, Bóris... Um a um e todos ao mesmo tempo, e eles entoavam um canto. Eram risos e conversas e aquela magia me fez devota dos amigos do meu pai e mais tarde, dos meus próprios. Meu Pai era quem aglutinava as pessoas e todos ouviam Gal, Bethânia e Chico e o som da máquina de escrever do jornalista que eu via crescer. A lembrança da casa está intocada na memória da criança que um dia, aos oito anos, ganhou de presente uma piscina um tanto rudimentar, feita pra cima, com um degrau pra subir, que se enchia com a mangueira do tanque. Sou ainda aquela criança, a mais feliz do mundo. Obrigada Pai! Aprendi com você a valorizar as pessoas, os sentimentos e os bons momentos da vida.

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