• Natascha Duarte

Ligeiramente grávida. Do sexto!


O que faz uma mulher com cinco filhos estar grávida de mais um? O casal é jovem, em torno de 35 anos, talvez menos, e participa de um programa de compra e reforma de casas, daqueles que lotam as tvs fechadas e cativam expectadores ao redor do mundo. A moça me pareceu alegre demais e o mais estranho, despreocupada. Como assim? Ela esperava com ótimas expectativas sua já numerosa família aumentar, então parei no canal, curiosíssima para saber porquê. O que vi a seguir me deixou boba. Afora a ousadia de colocar 6 filhos num mundo violento e super aquecido, com recursos naturais cada vez mais escassos e com barreiras humanitárias, econômicas e éticas a serem rompidas; a barrigudinha e seu marido escancaravam com sorrisos largos, seu direito a uma família gigante. Atenho-me a análise doméstica da vida do casal, que não deixa de ser também, um tanto antropológica. Será? Tinham 100 mil para comprar uma casa mais espaçosa, e 100 mil para a reforma. Eu imediatamente fiz as contas, como iriam achar algo com esse valor; já que proporcionalmente 100 mil dólares são como 100 mil reais, pouco para uma casa grande. Só que dólares têm mais poder... E continuei nas contas, como pagarão escola para os seis, lanche, aula de natação, karatê, música, a dança, o acompanhamento extra sala de aula, o cursinho para o Enem? Achei, por um instante, os dois irresponsáveis e senti raiva até, aí a ficha caiu, são os EUA, honey. Estamos falando de onde certas coisas dão certo; os EUA são referência de desenvolvimento para o resto do planeta, e ultimamente, até para a Europa, ou principalmente para ela, dependendo do ponto de vista. Não se pode ter seis filhos em outro lugar no mundo mas americanos são práticos e inteligentes. Não uma inteligência erudita. Outro tipo, mais inteligente ainda. Querem uma prova? Os apresentadores do programa de tv (menos famoso que o dos Gêmeos) conseguiram excelentes opções dentro do orçamento do casal, e até duas casas históricas, um escândalo de lindas, obviamente precisando de reparos, e em um bairro mais simples, de classe média baixa. Ora, paremos com isso. A verdade é que o casal do programa é como outro casal qualquer, só que com menos grana e querem algo único, mesmo assim. Com o dinheiro, o casal adquiriu uma das casas, para além de digna. Aqui se compra uma casa com 100 mil reais também, só que menos digna. Mas não é essa a questão agora. Voltemos aos filhos do casal, branco, do subúrbio e americano da gema. Os meninos terão acesso a uma escola integral gratuita, e o melhor lugar do mundo para uma criança passar o dia. E mais, quem precisa, pode usar o transporte da própria escola, que passa pertinho de onde moram as famílias. Inacreditável! Tudo parece perfeito mas não é, a saúde para os seis rebentos é pública mas não gratuita, e os pais precisarão de um plano privado. São doidos os dois. Se pagarem plano de saúde podem ficar sem dinheiro para a faculdade no futuro, mas quem precisa dela, não é mesmo? O mundo está cheio de diplomas e graduações, e não precisamos de mais carreias de sucesso e sim, de mais gente feliz. As pessoas estão se matando... Se os filhos não chegarem à faculdade, podem ser qualquer outra coisa (nos EUA não há a síndrome do ensino superior). Podem ser técnicos, mestres como na antiguidade; mestre padeiro, mestre sapateiro, mestre carpinteiro, estuda-se muito também, mas não na faculdade e por tantos anos. Cursos profissionalizantes! Foi a mão de obra técnica que reergueu a Europa arrasada pela segunda guerra, este é um dos segredos da Alemanha. Nem todo mundo tem que ser doutor pra viver bem. Voltemos à reforma. Com os 100 mil destinados para o upgrade da casa, os apresentadores do programa fizeram um projeto incrivilíssimo. Não sei se eles são empreiteiros com formação acadêmica; sei que mostraram disposição e trataram os clientes “pobres” como majestades (truques da produção!?). No episódio que vi, os “reformistas” acharam tudo o que procuraram. Lojas, materiais, gente que restaura, remodela, reutiliza, numa cadeia de produção alinhada com a realidade econômica do casal (aqui a galera da área é metida, vão me xingar). A madeira do piso, por exemplo, foi parar na bancada da pia da cozinha. Fizeram tudo sem desperdício. Não ouvi a palavra “tendência” em momento algum ou “moda”. Foi um show de competência. Das duas partes. Clap, clap, clap. Minha conclusão: são inteligentes, o casal que reforma casas e o casal de 6 filhos; uma inteligência prática, longeva, de resultados, sem “caprichos impossíveis”. Todos que participaram da ação agiram em conjunto. Pareciam formigas. Fortes elos de uma coisa só, como abelhas na colmeia. O que podemos aprender com os americanos? Dá pra aprender até num show de tv.

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