• Natascha Duarte

Mais que garotos

Capítulo 1

O ano é outro, pra frente dos eventos que afastaram os homens de seus sonhos e antes da salvação. Religião não existe. Quase não existe mundo.

Num ponto do globo terrestre mais ao sul dois rapazes escapam de um lugar sinistro. Uma camionete caindo aos pedaços anuncia que chegou. Eles entram no carro e fogem dali.

Os irmãos nasceram na Terra da Seca, a mesma terra que virou deserto de tanto o sol queimar. Foram separados pequenos. Um com o pai outro com a mãe seguiram destinos diferentes.

Em um lugar abalado por uma guerra na fronteira entre dois países foi criado Lucas, 15 anos, menino impronto como um reboco de parede. O mais velho viu a mãe casar com um empresário do ramo de gemas preciosas. Virgílio pegou carona na beleza de esmeraldas e diamantes, tem 17, e é bonito como a noite.

Durante a segunda metade do fim do mundo, e magicamente, foram colocados juntos no mesmo Centro de Aprimoramento do Caráter. Conheceram-se sem se conhecer e por acaso ficaram amigos durante os passeios ao jardim. Já se vão 4 meses de convívio.

Localizado na América do Sul o Centro é um reduto da ciência comportamental ou do que restou dela. Para chegar até lá o esforço é enorme. Acontece que ruas foram destruídas, pontes impedidas, cidades abandonadas, tudo na tentativa de salvar a humanidade. Virgílio e Lucas viajaram separados. E estão juntos neste momento.

- Quem vê o mar diminui de tamanho, disse Virgílio. - Nunca me imaginei maior que um sorriso.

- Oxalá, guardião das coisas imponderáveis, como se alguém ligasse para os seus sentimentos, disse Lucas não com indiferença.

- Sou inocente. Nasci inocente como uma promessa...

Os meninos riram como pizza esparramada. Muitas vezes, sem saber, eles cantam pequenininho a mesma música intensa no mesmo segundo. Foi o que aconteceu quando se despediram naquela noite.


Capítulo 2

Antes global e moderno o planeta passou por pandemias virais que varreram muitas vidas a partir de 2020. Bactérias também deram sua contribuição à limpeza. O homem?! Foi quem destruiu o mundo primeiro. Antes global e moderno, grandioso e opulento o planeta agora é segmentado e rural, excetuando cidadelas espalhadas pelos continentes ricos - o conceito de riqueza mudou bastante. Sobretudo para as pequenas aldeias falta tudo. Falta dinheiro, falta chuva, amor não existe. Os homens seguem, potencialmente, habitando a desordem. E aí, bem no meio, é que mora o Centro.

Com o coração vulnerável Lucas foi encaminhado pra lá pelo modelo de Estado que ainda vigora. O menino fazia bombas caseiras e por lutar contra os abusos dos novos conquistadores foi, digamos, poupado de um cárcere mais atrevido e o Centro de Aprimoramento do Caráter foi, digamos, um gesto de entendimento das autoridades para com ele.

Virgílio, por sua vez, foi enviado pela família que mantém crença infinitamente maior que a do garoto no tratamento. O que se sabe do mais velho dos irmãos é que o currículo sexual impressiona até no futuro.

Em uma noite ininterrupta em que puderam ver as estrelas até brotar o dia os meninos checaram os últimos detalhes do Plano. Não poderia haver presente melhor nem sorte maior do que terem se juntado.

- Eu sempre quis crescer, sempre desde pouco tempo, mas desde que me lembro, disse Lucas que aqui era quem filosofava.

- Para mim você precisa diminuir, não crescer. Virgílio, estranhamente, salgava tudo à sua volta quando formulava seu próprio ser.

De volta ao dormitório branco e sem janelas, Lucas entregou-se a algo inesperador. Acostumado a contemplar o abismo, o garoto adquiria um peito transparente, um coração leve e até um riso na cara.


Capítulo 3

Duas semanas depois ele explodiu a bomba. Foi no dia da Festa das Fitas, perto do mastro de fitas coloridas que lembrava, vagamente, o mastro das festas religiosas de um tempo distante.

O barulho ecoou formando um alvoroço no pátio principal. Centenas de jovens correram de um lado para outro com raiva sincera e pavor. Não houve feridos.

As explosões aumentaram, aumentando a desconfiança dos garotos de que haviam mais como eles. No estupor do medo que se instalou no pátio do “presídio”, os “carcereiros” foram incapazes de controlar a comoção e começaram a correr feito os detentos.

Com a explosão, o portão de entrada do Centro desmoronou e de algum modo a camionete parou ali, dirigida por um motorista que ouvia um rock inconformado saído de uma fita K7 em péssimo estado.

De dentro do carro o barulho das bombas misturou-se ao dos solos de guitarra elétrica deixando o motorista meio zonzo. Ele encostou o carro no local combinado.

- Pai, disse Lucas, vamos, vamos, vamos.... Saíram de lá voando.

Sob o sol-vermelho-fogo do sábado-fugidio-libertador os três seguiram viagem por um longo tempo sem nada falar, até que a emoção fingiu calma e na vastidão sem amanhã daquele mundo sem chance uma canção surgiu entre eles, de repente, e no instante exato, baixinho primeiro, para depois cantarem alto a mesma música.




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