• Natascha Duarte

Menina dada


O prédio para moças ficava em frente a uma casa familiar. Rua 25. Número 18. De dois andares, quartos sem banheiro, pagamento quinzenal. Foi lá que a menina veio ao mundo. Quando a cidade era um tiquinho e o país uma desgraça.

Eusébia Cruz. Nem grande nem pequena. Nem bonita ou feia. Nasceu de um choro comum, nada de esforçar-se na apresentação. Insistir em ser amada é que não. Veio sem pressa no chão frio da recepção do prédio, acudida por Osvaldo, o zelador. A ajuda do homem fez Eusébia aceitar a vida. A menina parecia não querer acordar, parecia dizer “Me dá a mãe de volta”.

Se é verdade que os bebês ouvem as palavras da mãe e reconhecem sua voz se relacionando com ela ainda na barriga, também é verdade que sentem pelo cordão o excesso de cigarro e álcool, as noites mal dormidas, e sofrem com os empurrões, os cutucões no útero, a humilhação.

Ainda que fosse tudo violento durante a gestação, a filha nutriu pela mãe um amor verdadeiro, de odor fresco, que lembrava um dia no prado. Fez da barriga seu altar. Mas a mãe foi dela apenas com ela dentro.

O parto mudou tudo. Ainda coberta de sangue, Eusébia sentiu a figura genitora contraída de repulsa naquele que deveria ser um grande momento. Por isso recusou o peito. No dia infeliz em que nasceu, a menina apenas dormiu.

Nas primeiras semanas a mãe, entre uma levada de mamadeira à boca da menina e outra, oferecia a pequena aos mais chegados, aos mais distantes e a qualquer um na feira de domingo. “Veja você, tive uma filha e não posso criar. Você quer uma filha? Dou-te-a agora mesmo!” e sacudia a menina.

Uma particularidade foi descoberta na convivência entre as duas. Por volta de três ou quatro meses a mãe viu que a menina era diferente, nada que se notasse passando rapidamente os olhos. Só com uma análise demorada, física, segurando a menina, torcendo os bracinhos e as perninhas, dobrando a coluna para trás. Estalando os dedinhos um por um, refastelando o corpo pesado sobre o da menina pra ver se doía...

A menina não tinha ossos, ou se tinha eram molinhos, suficientes para sustentar os músculos e a pele tão somente.

A miúda foi entregue meses mais tarde, nua e sem cuidado. Fedia. A família que morava em frente ao prédio de moças ficou com a menina. Com um sorriso único a mãe adiantou o algo peculiar aos novos pais, mas falou baixo, objetivando não ser ouvida: “p p podem luccccrar com elaa…”.

Tão logo cresceu a menina, a particularidade veio à tona. A família religiosa então fez planos. Os colegas de escola, os vizinhos, todos ficaram curiosos. A menina elástico (assim foi chamada) passou a se apresentar em festas da cidade com apenas 5 anos de idade. Fazia piruetas, exercícios de contorcionismo, caretas e todos voltavam os olhos para ela e apontavam os dedos e usavam palavras como aberração ou esquisita. Eusébia era uma menina dada. E meninas dadas não podiam prestar.

A mãe adotiva forçava longas horas de treinos, todas as noites antes do jantar, até murcharem braços e pernas. A menina era preparada para virar atração de circo. Os preceitos do Evangelho haviam falhado na família religiosa. Nem flor nem odor dos prados nunca mais.

Eusébia fugiu de casa antes de entrar para o circo, embarrigada do namorado, um menino bonito e de pouca instrução, mais interessado em se deitar com ela. Ela tinha 15 anos e Joaquim 16. O garoto abandonou a namorada antes de chegarem na cidade em que pretendiam morar. A menina foi o que deu pra ser até a neném nascer.

Passo seguinte: ofereceu a filha. “Te dou a pequena, não posso cuidar dela”, dizia verdadeiramente sentida e provavelmente aflita.

Entre um cafuné e um beijo, deu um pouco dos dois, Eusébia se despediu da menina 6 meses mais tarde e nunca mais a viu.

Saiu para procurar ocupação. Foi um pouco babá (talento algum praquilo), ajudante de cozinha, auxiliar de banca na feira, ambulante de lingerie. Sabia fazer conta mas não escrevia, todavia, aos vinte e cinco dias do mês de seu aniversário de 18 anos o destino, por merecimento?, bateu à sua porta.

Um caminhão com gente sorridente chegava à cidade e Eusébia foi lá ver o circo de perto. Apaixonou-se por Mattia e ele por ela.

No circo Eusébia encontrou-se não como contorcionista, mas como mulher do galante Mattia, dono da companhia. O homem bronzeado a levou consigo na boleia do caminhão coroando de púrpura a mulher que surgia nova.

Com voz importante e rosto coberto por um azul profundo, sua cor preferida no mundo, Eusébia transformou-se na apresentadora oficial dos shows e na primeira-dama do circo.

“Senhores e senhoras, agora com vocês, o Grand Circo Mattia”, ela não se aguentava de orgulho.

Nesse tempo Eusébia começou a escrever. Alfabetizou-se durante os intervalos das apresentações com a ajuda do Homem das Mil Caras e da Mulher de Bigode. Foi um tanto feliz. E um tanto intempestiva.

Quando alguém de pele mais lisa, menos ossos ainda e contorcionista de boa reputação apareceu por lá, o sol se escondeu de medo de Eusébia. Aqueles cabelos novos procuravam encrenca e o cheiro do corpo de Olívia, nove anos menos que Eusébia, tudo nela preparado para o amor, fez Mattia mudar de cama.

Ele precisou morrer para que a mulher nascesse de novo. O dia amarelou como nariz de menino escorrendo e esquentou Eusébia. A questão foi resolvida com veneno de rato mesmo. Matou o homem depois de descobrir que Olívia estava grávida. Ao vê-lo atirado ao chão, boca espumando, fingiu sofrer.

Nenhuma investigação de fato aconteceu. Ninguém desconfiou de ninguém.

Eusébia teria saudades daquela barriga morna e cheia de líquido em que nadou protegida do mundo e não entendia, jamais entendeu, porque a vida era assim, apertada.

A tenda e o caminhão foram vendidos e renderam pouco, quantia que a herdeira de Mattia dividiu com Olívia, mais pela criança que pela maldita.

Poeira assentada, Eusébia alugou uma casinha em outra cidade e passou lendo a sorte nas mãos dos outros por dinheiro. Era boa naquilo. Arte que aprendeu comigo, a cartomante do circo e sua única amiga.

Viveu isolada com o que seus segredos trouxeram - um mundo de enunciados vagos, pernas desobedientes, bicos de papagaio e páginas, mais de 400. Escreveu tudo. Contando tudo.

No instante em que bati à sua porta o cachorrinho Piki deu sinal. A dona exalava mal cheiro já. Para encontrar os cadernos foi preciso revirar o quarto. Eu sabia dos cadernos mas não os tinha visto ainda.

Um conjunto afinado de cordas foi provavelmente testemunha da morte. Dizem até que andaram por lá uns cantadores, pelas calçadas, no dia exato em que o coração dela parou, inseguro se devia continuar perdido ou não.

Respeito minha amiga!, mas creio que ela partirá para o inferno assim que lhe buscarem a alma.


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