• Natascha Duarte

Meu nome é Hilda

Confesso que precisei de álcool. Nunca bebi tanto. Foram horas de desespero horas de esperança. O equilíbrio entre os dois só veio mais tarde. Os maus momentos paralisaram-me, incendiaram-me, será que o lixeiro sabe quem mora aqui? Casa tem desses percalços. Foram muitas garrafas essa semana que dispensei lá fora. Mulher viúva de idade avançada... Os rapazes da coleta de lixo devem ter-se rido de mim com aquela caixa de papelão corrompida pela bebida. Fiz para facilitar o trabalho de vocês, ingratos. Um certamente saiu com essa: Velha maluca, que tanto de garrafa, meu? Outro certamente saiu com essa: Toda semana, bro! E tem traças por todo canto que uma prima minha foi fazer faxina na casa e ficou assustada. Isso dos outros falarem de mim me dá náusea. Se eu soubesse a tempo que Laura era prima do moço do lixo eu a tinha mandado à merda e suspendido as faxinas. Agora eles falam de mim pelas costas e a casa permanece imunda. Se eu fosse outra, pior, levaria na surdina as garrafas multicoloridas até outra calçada. Mas não sou má pessoa e pensar em parar de beber eu não consigo. Não tem solução! Outro dia antes dessa pandemia dos infernos porque depois dela tudo me divide, outro dia estava com uma amiga e pedi a ela um vestido que ela não usa faz tempo e ela se recusou a me dar. O vestido é vermelho e tem flores no peito, não serve mais, uma perversidade dela comigo. Percebo que o mal presta atenção em mim nessas horas, tive vontade de a esganar com força embora só tenha dito nada farei para satisfazê-la daqui pra frente, o que foi pouco, é verdade. Ando muito comigo ultimamente por isso o monte na calçada. Deixem-me com as traças e os vestígios do passado, nem sei se sou normal... Atrás de mim há um véu que me encobre, me venda os olhos toda a minha vida, isso ninguém respeita, meu momento, nem quer saber. Minha dimensão se esvai e não mergulho mais nas nuvens como ontem, uma coisa triste. Olho sem ver. Não sou ninguém. Deus, meus filhos não aparecem, só por celular. Que jeito horrível de viver. O que o Antônio diria? Ainda bem que ele morreu. O que existe agora não tem nome. Que estou dizendo? Posso inventar um, sempre fui boa em inventar palavras - corobuqi. Sim, corobuqi é algo indescritível, Antônio. Se eu pudesse fazer tudo de novo me nasceria Hilda. Hilda é um nome bonito para minha feminilidade invulgar e altamente impopular. Hilda nasceria na maternidade da sala de estar fazendo puhhh. E não é que veio? Chegou brilhando. Apresentamo-nos. Hilda bebe whisky e está fora de forma, pretende ser grande e tem todo o tempo do mundo para ir, ir, ir até as alturas. Já a considero o meu melhor lado. Perguntei se ela queria saber alguma coisa sobre o futuro. Ela não entendeu a pergunta, nem sequer sabe quem é. Ela tem em mente outro papel pra mim e me veio num disfarce me fazer acreditar que eu não estou perdendo a coragem. Desista, Hilda, sou uma conformada convicta. Desconfio que Hilda só apareceu por causa dos martínis, mas ela não precisa saber do detalhe indelicado, a compreendo em sua plenitude e importância e sei que ela é maior que eu. Mas ela não existe, não é mesmo? Talvez dissesse Hilda, não sei o que fazer de mim, os grandes homens da História não conseguiram nos salvar e tudo me maltrata. Mas só o que disse foi feche a porta quando sair e por favor não volte mais.

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