• Natascha Duarte

Não sou rosa

Para a Mãe


Aqui vai uma lembrança da minha infância. Andam a falar tanto em infância. Sei por quê. Esta é uma reação coletiva esperada quando os homens estão à beira do fim dos tempos. Tenho a impressão de que estamos vendo o mundo acabar, você não?!

Eu tive uma infância e tanto, pais inseparáveis e festivos que me levavam a passear pela vida carinhosamente talhada por eles com o cuidado maior de todos. Assim, com desvelo, apresentaram-me o carnaval, solenemente, em um lindo baile matinê no Jockey Clube da cidade. Eu tinha 9 anos. Havia à época alguma tradição em bailes carnavalescos e participar de dois ou três foi um prêmio para mim.

(Vão dizer que copio Clarice, a insuperável. Vão dizer? Bom para mim que não sou rosa e espero, ainda que tardiamente, pelo meu desabrochar. Ela já nasceu flor. De uma prontura pra tudo o que era coisa, sempre preparada; é possível que ela tivesse algumas dúvidas, mas eram poucas, bem poucas. Mulher daquela não titubeia).

Eu não, sou a mesma do carnaval, cheia de coisas cheias de medo na atmosfera que me preenche e rodeia, alguns medos leves, outros duros e eternos. Não é comparação o que faço nestas linhas, é antes uma homenagem. Ainda que eu antecipe o negativo que sei virá com o tempo (veem o que eu disse do medo?!). Onde está minha inspiração que precisei Dela, a grandessíssima? dirão. Isso se alguém disser alguma coisa. Se alguém ler o que escrevo! Vocês queriam o que, que eu não participasse do concurso literário?

Uma amiga falou dele em cima da hora e aqui estou me lembrando do conto que li ontem e que essa mesma amiga disse ser o seu preferido da escritora divina ou, escritora espinho, já que toda rosa tem espinhos. Fiz, sabidamente, uma ponte entre o carnaval Dela e eu própria, e, sabiamente, estou aqui a me lembrar da minha própria primeira vez. Clarice me deu uma oportunidade. Obrigada, querida. Eu que precisava de uma obra inédita, uma obra inédita para me inscrever no concurso, a tenho finalmente.

Mas quem disse que isso são obras? Muita vez eu fico a perguntar a mesma coisa, é trabalho quando ninguém nota? É ainda trabalho quando não se é remunerado ou publicado? Trabalho voluntário é o que eu faço, isso sim. Embora confesse que tenho um pouquinho de orgulho de mim aqui, mesmo não sendo ninguém.

Para o meu carnaval teve fantasia de cigana mandada fazer fora. E tive saia de cetim curta, rodada e vermelha, com umas contas douradas nas pontas, moedinhas que faziam a vez de guizo, faziam um leve barulhar. Blusinha branca tapando os peitos inexistentes, barriga de fora e nenhuma maldade. Eu bem poderia passar por uma experiente cartomante com ela (lá vem a escritora de novo, sou muito influenciada por ela, por ela e por outra Ela que veio primeiro me gerar) bem poderia passar por uma cartomante com toda aquela aura desconcertante de quem vê, além dos olhos, o futuro dos outros. Tudo fruto da roupa. Meninice pouca a minha, levei a sério o figurino, queria adultar logo para a previsão das cartas... Risos!

As idas à costureira com minha mãe perturbavam-me e enchiam-me de uma energia clandestina. Ao experimentar a indumentária algumas vezes senti que meu peito ia arrebentar. Respirava devagar para o coração não escapar de mim se não morria ali mesmo, na sala singela da costureira, espetada por alfinetes e antes da festa. A espera pelo baile foi maior que quase ele e de um jeito marcante minha mãe cravou fundo essa memória no meu espírito. Minha mãe, ela sim, até hoje, minha melhor fantasia.

Da emoção que senti no grande dia era um misto de menina virando gente e de menina voltando ao feto, sei lá. Uma intuição surgida no acontecimento em si e que perpetuou no salão com a música e a dança, e que me fez, em um rodopio, compreender todo o significado da vida. Eu jogava os confetes para cima e as serpentinas e os via descer num movimento natural, aquilo e todo o resto me conectaram a uma ancestralidade secreta (abro o Seu livro para me inspirar, pego uma palavra Sua, “secreto”). Intimamente pensei nos que vieram antes de mim e me vi dançando um ritual único, meu e deles. Pensei nos que viriam depois e eis o mistério! o ir e vir de tudo o que é vivo. De resto, um dia haveria de ser tudo festa, “ô jardineira por que estas tão triste...”. Cresci anos.

Já não existem mais bailes conhecidos ou desconhecidos nem existe o clube da cidade ou costureiras. As crianças já não dançam. Algumas famílias consideram a festa pagã e a brincadeira acabou acabando, banida primeiro dos clubes e depois das escolas e nunca de nossa memória.

Junto de mim no meu primeiro baile de carnaval havia uma amiga, meu irmão e o irmão dela e fantasias coordenadas para os 4. As alegrias eram maiores, umas mil por minuto. O que fui no baile ninguém me tira. Nossas mães estavam lá. O pai não lembro, mas estava também, no bar com algum amigo, sorrindo largo e lindo. Ele era sempre incondicional em tudo. Grandessíssimos ele e a mãe. Tem gente que é carnaval o ano inteiro!


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