• Natascha Duarte

Nós somos de Marte...

Nós somos de Marteee.... Gritaram entusiasmados ao passar pela cabine do pedágio numa brincadeira que fez a moça que recebeu o dinheiro sorrir. Ela trabalhava; os quatros voltavam de um passeio e naquele exato momento eram as pessoas mais felizes do mundo. Era fácil. Um dia lindo, uma cidadezinha como aquela, um passeio na casa da avó. Diziam que a música ajudava então, colocaram música no rádio e jogaram o jogo das palavras, uma tradição das viagens de carro, uma letra e uma dica e ganha quem adivinhar a palavra. Tinha também o jogo do fusca, este para quando se chega na cidade, quem achar mais carros vence e não valem os que estão parados nas oficinas, estragados. Não. Só os que circulam livremente pela cidade rodeada de morros e vegetação e muito perto de nós. Na cidade histórica de ruas de pedra, as cervejarias artesanais estavam repletas de gente, realizando pequenos produtores e inspirando o público com gostos e cheiros diferentes. A sorveteria, pousadas e restaurantes pulsavam. Pulsavam. Eles sentiram um bem querer de criança e pensaram no lado bom da vida. Na volta pararam como faziam toda santa vez numa loja enorme na metade do caminho. Tomaram café e suco, comeram torta e foram ao banheiro. O sucesso da loja, a prosperidade da cidadezinha de onde vinham e aquele cabedal de minutos expressivos do fim de semana fizeram a mãe acreditar que o futuro seria glorioso. Não há nada de errado com esse país. Quase sempre compravam uma coisinha na loja, calça de moletom para o mais novo, panos de prato para a cozinha. O que mais pode ser dito? Ah, sim. Agradeceram o passeio por aumentar suas percepções, o alcance do olhar, até a maneira de encarar medos e expectativas; por expandir o pensar e cada uma dessas viagens será toda vez festejada por eles porque elas fazem assim com a cabeça da gente: vuuuuuulllllll.... As conversas que tiveram no carro aconteceram na presença de Deus quando as crianças falaram sobre solidariedade, compaixão e entendimento, e também quando mudaram o sentido de algumas palavras, usaram outras fora de contexto, inexperientes, exercitando o senso crítico. No espaço diminuto sobre rodas qualquer assunto abria a porta para o diálogo, tudo importava. Filosofaram olhando o sol se pôr e a estrada foi ficando movimentada até que abaixaram o som para que o pai pudesse dirigir cheio de atenção e assim voltaram para casa. Mas nunca ao que eram antes. Já tinham se modificado outra vez.

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