• Natascha Duarte

Nem 1 Amor verdaDero


O que Sara não conta é que escreve no ar. Quando está no vagão do trem chama muito a atenção. A mania de escrever nas costas das pessoas que vão em frente a destaca da multidão sem nome que pega o trem no mesmo horário, todo santo dia. As pessoas que servem de papel não veem o movimento coordenado das mãos de Sara. As outras pessoas do trem, sim. De início Sara é tímida. Levanta o braço direito e tece pequenas letras no ar como uma bailarina em seu primeiro solo. Como uma professora do infantil brinca com as palavras buscando cada uma cuidadosamente. O contorno dos seus dedos escreve coisas como: Se-u-gran-de-fi-lho-da-mãe. Sara não respeita a gramática. Coloca hífen onde quer e onde não tem, coloca pressão pela vida que leva. Faz longas pausas entre um escrito e outro e respira desenhando vírgulas delicadas. Com ambas as mãos coloca aspas e faz lindos travessões. _ Eu, “cuidu”, de, Mim. Alterna maiúsculas e minúsculas e erra da maneira correta. Quem vê acha que a moça é um gênio moderno e que só anda de metrô pelas ruas de São Paulo porque ainda é jovem; que vai ficar rica, rica não, riquíssima e aí olham para ela com admiração e respeito. Com Sara as letras são desimpedidas: Nois é 10! EU TÔ PuTA Com O _ TIAGO. Ninguém acha esquisito. Se alguém em frente percebe que virou papel olha pra trás e faz cara feia. Muitos chegam a manter distância do encosto da cadeira. Mas só os da frente enfurecem ao não perceberem as infinitas verdades de Sara; para o resto no vagão aquele pode ser o instante feliz do dia, momento em que surge um raio de sol, porque a menina brilha, ela é um combo completo de beijo e abraço. Aconteceu uma vez de uma mulher não muito mais velha que ela voltar-se para trás muito incomodada. Fez Sara mentir ao dizer que procurava os óculos que haviam caído. Durante as desculpas Sara cativou Letícia e se deixou cativar por ela. As duas ficaram amigas e dias depois dirigiram-se para o mesmo lugar, no centro da cidade, Sara levando Letícia. Os braços de Sara são longos e brancos; suas mãos sinuosas e prolixas em esmalte azul claro repetem trechos que ela vê escrito até mesmo em paredes pichadas. Sara escreve no ar para guardar as palavras. Não quer deixar rastro. Que ninguém a leia pois só desse jeito ela permanecerá como um desejo, incontrolável. Sem que adivinhem a sua alma Sara segue com o cabelo colorido e as roupas limpas cheirando a perfume até quando não tem gente lhe dando as costas no trem. E se não tem costas ela não escreve e seu espaço no mundo fica reduzido e ela se abandona, com energia e auto estima desligadas. Ao longo dos anos a moça desenvolveu uma obsessão: numeriza tudo o que vê. Assim, naquele dia contou: um, dois, 8 seres humanos desprezíveis neste vagão comigo. Escreveu: T R E I S, seis carros de brancos conduzidos por motoristas negrox UNiformizados. E ainda: “40” mulheres com peitus, bocas E bundas enormIs desdi o inicio da semana. Bolsas de 5, CINCO mil cada!!! Eu acho que assim ela intensifica as suas dores. Ela acha que assim cura. E continuou: Nem 1 Amor verdaDero na calçada DO restorante. Mas que Merda - DE - Vida... O resultado mais recente da contabilidade de Sara ela escreveu num caderninho, sobre papel real, ao deixar o quarto térreo do prédio no centro da cidade, frequentado por meninas bonitas e homens nem tanto: Foi-a-vez “72” que Vendi “meu CORPO”. Sofreu. Sem sentir culpa.




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