• Natascha Duarte

No meio do caminho tinha um tatu

Tem tatu no quintal. Não sei de onde ele veio mas ele esteve por aqui. Tem pato no telhado. Foi uma cena insólita, bonita de ver. Tem grilo, aranha, sapo. Tem perereca na cozinha. Tem lacraia no banheiro. Mata! Matei. E tem água jorrando do rio que corre canalizado e bem cuidado por todos os que dele desfrutam. Tem tucanos, araras, sentimento e convivência; tem fruto no chão, limão no pé e acerola, jabuticaba e mandioca. Tem o vizinho que faz cachaça, o amigo Sebastião, a vizinha mãe do menino que agora brinca com os meus meninos, o vizinho do lado de cá, o do lado de lá, a vizinha da frente; e eu abano a mão quando vou passando e dou oi e arranco ois. Tem a feira de domingo, dia de garapa e tem a de quarta, dia de pastel depois da academia. Tem tudo mais perto, mais fácil de chegar e de ir embora e mais barato, o que também conta. Não tem sinaleiro na cidadezinha. Tem trânsito cordial. Não tem barulho na cidadezinha. Tem canto de pássaros. Tem a escola particular, projeto da vida dos proprietários e sete colegas na sala. Sete. Tem o frei da paróquia que fala devagar e vive sorrindo, tem pizzaria nova, futebol na rua, bicicleta e chuva. Um só carro por família, mais sustentável impossível, ajudante satisfeita na minha cozinha e tem emprego, horda de gente produzindo, marceneiros ficando prósperos, padeiros bem controlados e não só os fazendeiros locais. Tem dinheiro circulando. A agente de saúde veio e disse que vai passar uma vez por mês. Sentou-se demoradamente e eu não estava com pressa. Não como antes. A casa do interior não tem luxo, quem precisa dele?, tem cupim na grama que eu borrifei com veneno branco e tem a marca de marcar gado da época da fazendinha, quando eu era criança. Tem árvore, céu azul e proteção. Tem noite de lua cheia que vemos da varanda e muitos instantes de alegria dilatada. Abelhas jataí, chão de terra batida, pedras e estrelas. Tem um gato e agora tem a gente. A casa era do meu pai e onde havia uma lacuna no meio do caminho eu preenchi com vida novamente. Mais precisamente por estar aqui.

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