• Natascha Duarte

O Ano de Laura

O ano acabou mas a vida de Laura continua. Ao sair de moto no primeiro dia do ano ela primeiro levantou a saia numa atitude já peculiar sua. Pequena demais e sempre sozinha não olhou para trás quando deixou a calcinha amarela à mostra. No acento de couro ela se transforma. Os festejos da noite anterior não a incomodaram nem um pouco. Tinha muita gente na rua, todas usando a máscara da Covid como que encenando o carnaval. As pessoas riam enquanto o mundo acabava, o que fez Laura estranhar de um jeito profundo a humanidade. No canto do seu quarto consagrado ao deus da música, Laura colocou um certo Mason para ouvir. Ouviu alto, muito absorta e acendeu velas. O quarto é preto por dentro, azul desbotado por fora e muito pequeno, também ela é pequenininha. Tem cruzes por todos os lados e altares, mas nenhum santo. Tem imagens de caveiras e um cachorro pit bull xerifando para proteção da moça. O lote é imenso em comparação ao tamanho do quarto e faz Laura desaparecer toda vez que aparece no jardim. Ao sair de moto no primeiro dia do ano ela ouve o cantor de quem é quase devota. O cantor também usa roupas pretas coladas e lápis preto em baixo dos olhos fundos. Nos shows dele, que ela vê pela internet, Laura tem uma expressão desoladora. Se encontrasse o ídolo se abraçaria a ele para morrer. Ela não sabe que não aprendeu muita coisa. Jovem, sobe a rua provocando um barulho extra no motor da moto. O dia não traz novidade. Tudo é como sempre foi. Sua história continua a história de uma gente sem socorro. Laura não foi ao dentista sempre que precisou ou ao médico toda vez que sentiu dor. As filas impediam a mãe lavadeira de esperar no postinho de saúde já que a roupa da patroa tinha pressa. Laura tem dentes e ossos fracos. À escola faltava por cansaço. A faculdade de História, pública, que ela cursa, entrou com cota. No Campus envolveu-se com os movimentos estudantis e assumiu as tarefas menos relevantes do Comitê de Estudantes. É comum vê-la catar restos de papéis e copos descartáveis, apagar as luzes e fechar o centro acadêmico, recolher camisinhas sujas e, uma ou outra vez, absorventes usados. Mas Laura não é só perda. Tem uma melancolia extravagante em si que despertou o olhar de um homem. Com ele Laura conheceu o amor. Foi amante do chefe do departamento, um homem mais velho e casado, que exerceu sobre Laura um poder antes intelectual que físico. O caso dos dois durou um ano. E acabou de acabar, dias antes do Natal. Em cima da moto Laura se lembra de como o conheceu. Depois de algumas aulas, uma galera fora convidada para a casa do professor. Ele, muito amável, recebeu os alunos com entusiasmo, e ao ver Laura, a tratou com uma distinção elevada sentindo-se atraído por ela de um jeito sem volta. Quando, depois de beberem e comerem, ele levou os alunos em casa deixando Laura para o final, tiveram a primeira noite juntos. Não eram um par. Laura é incipiente, precisou elaborar um plano infalível ali mesmo na sala de estar do professor ao perceber o despertar de seu interesse por ela. Caso fosse para a cama com ele beijaria muito Ulisses. De boca aberta e com a língua acesa, ofegando; perscrutando cada tanto de boca que conseguisse sorver, gemendo. Durante um ano eles se encontraram pontualmente, três ou quatro vezes por semana. O romance fez Laura tatuar um desenho no corpo para lembrar que mesmo injusto, Deus olhava por ela. Por um instante imaginou que se casariam e teriam filhos. E esperou. Enquanto aguardava, recebia os presentes dele como confirmação do seu bom desempenho de amante e futura esposa. O colchão que a fazia voar de tão macio, a pulseira de ouro (que serviria em dias de aperto), os fones de ouvido caríssimos... Até que Ulisses quis se separar. O último beijo fora no centro do quarto preto e de olhos bem abertos. Todo ele ausente ali. Ela bateria a cabeça de seu homem na parede de tanta raiva, mas só fez queimar o colchão. Ao pé do morro que abrigou um bar underground que Laura frequentava na adolescência, ela, no primeiro dia do ano e de novo, fuma maconha e ouve aquelas músicas estranhas que ecoam de seus fones grandalhões, e fazem sua cabeça parecer ainda menor.

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