• Natascha Duarte

O fazedor de roupas ou O espanador do homem


Entrara na facção de costuras por acaso. Puro meio dia. Viu o velho. Ele usava um espanador de pó, base cinza e branca, penas desgastadas. Conversaram. Eu preciso de uma máscara infantil antiviral. Ele espanou, tenho essa. Ih, parece grande. Ele espanou. Tenho essa outra. Boa senhor, deve servir, vou levar. Elegante ele pelo espaço. Grisalho embora destemido no jeito. Soltou-se com ela. É assim que faz frente à vida: amanhecia, adormecia, amanhecia outro dia e segue. Não costuma mirar o passado. Ou costurar. Nem cortar o tecido. As roupas que ela via, de grande personalidade num alaranjado absurdo, eram uniformes para uma empresa de energia elétrica de outra cidade. O “outra cidade” saiu solenemente. Disse ainda “minha vida fiz aqui”, enquanto, como um algodão doce, observava duas mulheres nas costuras. O velho era o dono, olhos de gigante, impossível não ver o poder da camisa branca pra dentro da calça de brim. Gesticulava com o pequeno bastão em movimento, que ao seu modo, falava com conhecimento de causa específico. O bastão dizia coisas secretas sobre o velho e o que não dizia, o velho mesmo contava. Atenção perscrutando poeirinhas. E isso não era apenas. Foi demais, mais do que ela merecia ter. É certo que ele fez parecer mais ocupado do que de fato estava e mais importante. A cliente prosseguiu subitamente interessada e foi

gostando dele sem precisar seu nome. Ela também fazia um bocado de coisa parecer mais relevante do que era. Tipo: arrumar a cama de dormir de um filho. Ou: ver um filme em família. Mais: zelar para que o banco da praça não caia aos pedaços. Quem é mais importante, o sanfoneiro ou o presidente do banco? ela filosofava no centro da pequena sala, inspirada nas conversas que manteve com os pais. A sensação de algo branco tocando sua consciência foi tanta que ela fechou os olhos e enxergou, lá no fundo, luzes em explosão. Sentiu-se palpitar. Eu, ninguém que sou e poeira, e vocês, iguais a mim em tudo, imaginavazinha a mulher como se houvesse descoberto um novo continente. Tenho três novos amigos, pensou e o mundo precisava com urgência daqueles três. As mulheres, junto às máquinas, praticavam a vida só de ir nas costuras com conseguimento de seus quereres. Para elas tudo viera dos panos. É justo que podiam ser o que quisessem, diziam: "Enfermeiras! mas somos costureiras. Médicas! Somos costureiras. Misses! Não, somos costureiras!" O homem, por sua vez, podia ter sido piloto de caça, professor de inglês, astronauta, mas era fazedor de roupa. Jamais se desviou de si próprio, de pé, enérgico enérgico. As mulheres também não se desviaram; por sua vez assoviavam, e iam costurando costurando. Elas pegam no pesado por mim, entregou o dono do lugar, entre agradecido e aflito, sem se dar conta do seu tamanho. Toda ela se pudesse ficava com eles, teve vontade de costurar tão bem-estar sentiu; e as roupas que eles faziam se tivessem escolha ficavam por lá com toda certeza, alaranjadas e eternas. O velho espanou o pequeno embrulho com a máscara e disse adeus. Encurvado, ele tinha pouco cabelo e falava com uma calma calculada para durar. Por dentro a cliente o viu viver teimosamente. Despediram-se. Deu pena ir embora e ela não fartou-se de planejar o retorno, quando ficaria por um tempo maior, afinal à lojinha emancipada ela voltaria até crescer.


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