• Natascha Duarte

O homem mais chato do mundo

Antes de começar esta história é preciso prologar. É que não sei como será pra vocês se não tenho certeza de como será para mim. Estou envolvido demais em minhas memórias e minhas mãos tremem. Podem haver inconsistências, redundâncias que me conduzam ao erro em certos momentos. Perdoem-me se for o caso. Não pensem que me sinto bem em falar mal de alguém, ainda mais um morto. Sei que nada justifica minha desfaçatez e nem a culpa que é dele ao me iludir abrevia a minha dor. Mas nada do que vai aqui escrito é mentira. Embora possa parecer um acerto de contas tardio talvez se trate mesmo é de um duelo de almas.

O conheci criança. Morávamos perto. Desde muito novo era chato, desagradável. Quando o convidava para minha casa ele dizia não. Se não o chamava ele queria ir. Propunha uma brincadeira ele escolhia outra. Resmungava. Ria das minhas roupas se eu estava de shorts ou de calças compridas, de camiseta ou de camisa. Não por maldade, desconfio, mas por incapacidade de ser outro alguém. Depois de certo convívio percebi que para fazê-lo aceitar um convite deveria desconvidá-lo. Assim:

- Não vá em casa hoje, não tem lanche.

O amigo caía toda santificada vez. Certa hora começamos a namorar umas garotas, namoros de pegar na mão, coisa de 12 anos pra menos, meninice. O Eliezer só tinha olhos pras minhas garotas. Puxava conversa com elas até na hora do pique-esconde. Uma vez fomos ao cinema, filme horrível, uns monstros japoneses muito mal feitos; os garotos da fileira de trás vaiavam e ele aplaudia de pé feito um louco. Gritava bravo, bravo quanto mais os garotos da fileira de trás odiavam o filme. Éramos próximos não sei por quê. Eliezer não tinha outro amigo senão eu. Seu pai ralhava com ele quando ele implicava comigo. Ou era a mãe dele que gostava de mim? Na adolescência meus pais se mudaram da rua. Desfrutei certa liberdade até que anos mais tarde o vi casar-se primeiro que eu (como não?!). Convidou-me pomposo pelo telefone. Conquistara o coração da garota mais linda da nossa mocidade, Laura. Eliezer era alto, de uma altura que envergonha a gente que fica sem saber se aquilo tudo é poder. A envergadura o forçava a encurvar um pouco os ombros pra frente. Ele tentava assim ser mais humano, eu pensava. No casamento vi que as brincadeiras diabólicas tinham virado uma marca. Continuavam sendo feitas sem estudo, a qualquer hora, com qualquer um. Também na igreja chateou o sogro e alguns amigos do trabalho. Contou que vira o vestido da futura esposa num esboço em cima da mesa dela e que não achara graça nenhuma nele. Brincando, falou de mim na frente de gente que eu nunca vira antes. Finda a cerimônia me mandei sem dizer adeus. Outros anos se passaram e ele me aparece um dia em casa. Estávamos maduros já, eu me casara também, tinha filhos, netos. Ele veio de terno cortado à mão, coisa fina. Carro importado. Um tanto esnobe ao falar uma fala ensaiada. Fiz festa, era meu amigo de infância ali e o convidei a entrar. Ele falou da moeda. Uma coisa internacional que estava mudando as relações comerciais. Dinheiro de verdade sem ser de verdade, entendem?

- Virtual é algo que não se vê, porém existe como o papel que se enxerga, disse com dentes brancos demais.

Convenceu a mim, minha esposa, meus cunhados e alguns vizinhos que chamei apressado para não perderem a oportunidade. Neste dia ele deu em cima da minha mulher com palavras elogiosas e desmereceu o lugar em que ela vivia comigo. Depois riu como um demônio. Mas não é que ele não muda? Esposa ficou com a vaidade animada, todo mundo notou. Senti pena dupla de mim, por ser um pobre homem e por ser amigo dele. Para participar da roda da fortuna vendemos primeiro umas coisinhas. Depois esvaziei o pouco que tínhamos na poupança, um dinheiro que era pra conhecer a Europa. Vendi o carro em seguida. E por fim, nossa casa. A essa altura meus cunhados já tinham desistido da empresa e os vizinhos se retiraram, não sem um pequeno prejuízo. Tentaram me alertar. Deixei de vê-los. Investimentos demoram, eu repetia em prece, também eu feito um louco. Eliéser sabia, ah ele sabia que eu ficaria até a nudez. Tem dois anos que ele desapareceu. Mudou telefone e endereço. A esposa está brava, me culpa e com razão. Moramos agora em um quarto na casa do filho do meio, carinhoso. Os outros dois são o cão. Meu dinheiro de aposentado ajuda nas despesas. Ando a pé, bom que emagreci um bocado. Essas coisas importantes não acontecem do dia pra noite, ou acontecem? Anos mais tarde ao morrer primeiro que eu (há de haver alguma justiça no mundo), Eliéser colocou um fim no meu casamento. Minha esposa me deixou. Fiquei com o filhote do meio e com a desonra. Eliéser me deve uma vida. Ainda que no inferno, em forma de alma penada, vou cobrar!

36 visualizações0 comentário