• Natascha Duarte

O inusitado acontece


Ulrica e Norica não se conheceram. Souberam da existência uma da outra depois de traçadas no papel. Não há nada que as aproxime mesmo assim. A primeira é personagem de um conto muito belo. A segunda me veio antes, no meu próprio conto e não é sofisticada ou branca. Norica não é seu nome. Chama-se de verdade Laurita; a brincadeira fica por conta dela não se presumir pobre, e sim norica, remedando o idioma inglês. A pequena coincidência, se podemos chamar de coincidência, me dirigiu a um fantástico escritor argentino dias depois de finalizar o meu texto, semelhança que começa nos nomes das protagonistas e para por ai. (Jamais haverá algo similar entre o gênio e eu na nossa verve literária, é impossível; como é impossível que eu ache a paridade dos nomes algo além de mera casualidade). Perdoe-me o leitor se é presunção minha colocar-me e ao escritor no mesmo parágrafo. Eu concordo que me excedi mas ando desavergonhada. Com o argentino aprendi a usar uma frase inteira dentro de parênteses ao iniciar um pensamento, e não apenas para complementá-lo ou acrescentar; como fiz acima. Aprendi a respeitar o delírio ou o excesso que às vezes enerva, aprendi a me respeitar por não entender tudo que escrevem e até a me permitir achar chato alguma coisa, e principalmente, a me posicionar humildemente diante de coisas como o Livro de Areia. Imaginei então, como se dormisse, e parodiando o autor que um dia encontrou seu próprio outro num banco da praça, a reunião das duas, a minha moça e a dele, em Luminosa, cidade que não existe mas que foi concebida por ser real, já que histórias imaginadas existem dentro de alguém. Isso quem me ensinou foi um brasileiro. A cidadezinha criada por outrem não menos fantástico que se dedicou ao universo fabuloso em um livro de contos é para mim, o mais perfeito cenário dentre todos do universo. Parado no tempo o lugar receberia a visita das duas mulheres. Ulrica chegaria vestida de vermelho, extravagante e lúcida, tez luminosa e seca pelo pó compacto; inquietude por todos os poros por conta do calor. Sentada em um cômodo do Hotel Oriente parecido como uma antessala, tomaria café no interior de São Paulo num desfrute apagado. Repelindo qualquer tentativa das pessoas de se aproximarem diria “Confins do mundo é o Brasil”, e para quem como ela é da Noruega, consistente é a sensação de embriaguez diante da província brasileira do começo do século passado. Ninguém para conversar. Paredes caiadas. Cheiro de pouco progresso no ar. E curas. Eis que surgiria a antagonista, chegaria suada, acostumada com o brilho excessivo no rosto, larga no espaço que ocupa na cadeira. Eu disse que Norica é nordestina? Olham-se. Estranham-se e nada conversam na pequena sala vazia de gente. Ulrica ouvira dizer das cachoeiras. Foi por isso que a coloquei aqui. Muito geladas e medicinais. Não ousou perguntar a respeito. Uma beberia café frio e contentíssima iria ao banheiro. Toda hora me dá hora de ir ao banheiro, quase rimando. A europeia, fina e versada em letras, sentiria o estômago revirar ao constatar também precisar esvaziar a bexiga e desmaiaria, forçando voluntariamente o fim da história. Saber-se presente em um conto daria a ela alguma vantagem ainda que o estilo do banheiro do hotel a fizesse morrer por um instante. Era de uma simplicidade desconcertante. Ulrica não estava acostumada a hotéis sertanejos de outro século num Brasil em formação. O fim deve chegar, deve chegar, preciso sair daqui... Não veio. Ulrica acordaria mais uma vez em Luminosa e as duas tornariam a se ver na Cachoeira dos Marimbondos, lugar de loucos e semiloucos e algumas avezinhas. Buscariam conforto no marulhar das águas e nas cadeiras simetricamente dispostas onde curas para os males do corpo e da alma eram frequentes, atraindo turistas de todos os cantos do mundo, no entanto, não despertando o apogeu tão esperado. Atenção delas nos respingos jorrados do alto e alguma inverossimilhança que só realiza quem é capaz de sonhar. Com certos autores se aprende mais do que a própria vida pode ensinar. Ah, mas isso é outra história. Do encontro de Ulrica e Norica, se tivesse sido, teriam ficado boas amigas. Quem avalia é Simão, um exímio contador de causos luminosense.

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