• Natascha Duarte

O Livro da Vida


Dois seres distintos encontram-se pela primeira vez num cenário épico, grandioso, como tudo por ali. Choveu foi? Ainda chove, não vê? É que estou dormindo e acho que não vou acordar, ouço apenas o barulho. E como é isso de não acordar? Bem, não sinto dor e ... aonde você vai? falávamos sobre a chuva. O gigante dera as costas ao homem de repente: Não tenho muito tempo e tenho muita pressa, sou como o vento sem trégua seguindo por uma rota inespecífica, mesmo aqui (a voz se distanciava). Se tinha pressa por que foi que veio? Porque um banho muda tudo e agora é a hora, estou indo preparar o seu, espere. No céu se toma baaanho? Sim, aqui tambémmm. Seguiu-se um tempo indeterminado. E o resto, todo esse imenso azul, faço o que com todo esse afastamento e largueza? perguntava baixinho o velho. Você se acostuma, o gigante voltara, com o tempo se acostuma. Podemos conversar durante o banho? sei muito pouco sobre como proceder em um território desconhecido, riu nervoso. Claro, hum, espere. Me diga o que te atormenta já que queres tanto conversar, ou melhor dizendo, atormentava (confundindo os tempos dos verbos outra vez). O esquecimento de que somos mortais, veja, a natureza nunca deixou de existir já eu... E prosseguiu: Havia um bloquinho em casa onde eu colocava palavras, coisas que me vinham de manhã; eu copiava ideias dos outros também que não sou besta; coisas tão lindas que eu não era capaz de escrever sozinho, não seria capaz vivesse quantas vidas fosse e assim, roubava de escritores melhores que eu. Eis porque sou gente simplesmente e não um anjo como você - o tom era de confissão. A natureza é coisa do Deus e com Ele não se brinca, isso de roubar dos outros... A luz da lua foi bastante para iluminar a enorme bacia prateada preparada pelo gigante com sais e espuma, e o homem agora mais relaxado na água quente, contou as novidades que ouvira dos outros habitantes do lugar. Fiquei sabendo da famosa galeria 7 A do quarto andar da Estação de Tratamento do Sofrimento. Lá eles têm milhares de pastas contendo depoimentos sobre a experiência, não é mesmo? Depoimentos de animais até, de cães e gatos principalmente, o que eles sorveram da experiência, não é mesmo? Os bichos gostaram e querem repetir, mesmo tendo sofrido um pouco ou muito na terra; se cães e gatos querem repetir, imagine eu, Anjinho, imagine eu... Você andou se inteirando por aí, hein novato! Por certo que sim. De toda maneira é cedo para pensar em repetir, você acabou de chegar, que coisa! Faz o que, opa! fazia o que para existir, caro senhor? O que as pessoas da minha idade fazem: aposentam-se, liam, escrevem, adoram números, assistiam filmes, tinham amigos. Eu mesmo tenho uma família - lembrou-se dela. Presumo que família é uma coisa que não muda, ou muda? - o tom era de assombro. Houve uma época feliz da minha infância - o velho procurava fazer um novo amigo - em que estava muito, muito frio e minha mãe, para minha alegria, pegou folhas de um jornal velho e colocou entre as nossas cobertas para esquentar eu e meus irmãos à noite. Aquelas folhas tingiram nossa roupa de cama de preto e borraram nossos rostos e fizeram barulho quando nos mexíamos durante o sono. Contudo, esquentaram de ensopar... Mãe é mãe! Se é! Acabamos, prontinho, o senhor está que uma beleza. Não pude deixar de notar algo macio e branco buscando surgir de suas costas durante o banho. Não brinca! Rápido assim? Basta querer com fé e a gente vira anjo como aqueles do clássico filme alemão em preto e branco? estava curiosíssimo. Nãooo, só em alguns poucos a vida eterna faz cócegas.

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