• Natascha Duarte

O presente

Eu nunca soube porque ele não entrou na casa para dar a bicicleta à menina. Ela tinha 8 anos e era Natal, um Natal de fim de tarde incandescente e entre eles havia uma porta de correr de vidro fechada. O quadriculado do vidro criava a impressão de rostos disformes e foi assim que a menina o viu quando ele chegou, ele que nem parecia ele. Ela também deve ter surgido outra atrás da ilusão que a porta provocava, como se não fosse sua filhinha adorada. Porém, ao abrir o que os separava, a falsa impressão se dissipou e os dois encontraram-se no meio, nem pra fora nem pra dentro. Simplesmente em cima do trilho que corria no chão. Ali olharam-se e se abraçaram mais do que podia ser. A presença um do outro fortalecia os dois e fez a menina sentir na pele sensações diferentes que ela entendeu do jeito certo. A ansiedade pareceu branca e arrepiou a nuca. A felicidade amarela deu coceiras de tanto ela se movimentar. A saudade só podia ter a cor do céu, descobriu com a garganta apertada que a impedia de falar e o medo de perdê-lo, ah! o medo de perdê-lo não tinha cor e fez erupções saltarem de seu frágil corpo à noite, antes de dormir. Com a porta aberta até a metade os dois eram um atributo, seus corações batendo com perfeição; nem os moradores da casa da tia ou os cachorros ou os periquitos no corredor externo fizeram parar aquele barulhar. A menina virara um touro com o pai por perto (ou o touro era ele?). Na entrega, ele se abaixou na altura dela e com um beijo, apresentou a bicicleta. O silêncio, cúmplice do momento, alargou seu significado e a menina serenou das emoções contraditórias. Hoje quando ela olha para trás suspeita de alguns detalhes, talvez não tenha sido rápido, no meio do trilho, sem conversa alguma. Pode ter sido no aniversário e não no Natal. Mesmo assim, deitado no seu peito estará para sempre o pouco do que ela se lembra. Pertenciam-se. Senhor, perdoa por qualquer teimosia ou mau comportamento na escola, desculpou-se sem dizer. O mundo me assusta, continuou sem voz mas sabedora de que ele a entendia. O que ela fazia deixada na casa dos primos em uma data tão importante? Por onde andava a mãe? Assim que o pai se foi a menina também pensou ser importante como ele. Não me ame menos, não me ame menos, que linda bicicleta cor sorvete de creme... Mal colocou a adrenalina pra descansar, um primo passou as mãos no presente e pedalou rua afora a deixando furiosa. Anos mais tarde a angústia de perder o pai a buscou novamente, dessa vez rumo a finitude do corpo. A sensação sem cor do medo a abordara no diagnóstico do especialista. Doutor sem empatia, sem explicação, não deu um telefonema quando o pai viajou pro céu. Doutor sem cor e tão diferente deles. Ela não sabe como aconteceu: só que foi rápido: sem demora. Sucedeu que a esperança, a ilusão, a negação, a incapacidade científica, a ausência, vieram todas de uma vez e a dor experimentada, a dor experimentada deixou linhas tortas, paralelas e isoladas umas das outras. Foi a mãe que manteve tudo de pé. O primo da infância estava lá também, como um bom guia e amigo. Salve, meu Rei! Não digo bem, é preciso mais... Senhor, desde aquele dia e antes dele até nosso reencontro há de ser gratificante para mim, porque moramos um dentro do outro. Ela já não chora. Ao invés de tristeza vive uma estação quente e colorida, de um colorido vibrante e misturado que a faz querer devolver ao mundo a graça que dele recebeu.

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