• Natascha Duarte

O resto de Afrânio

Nesta data de 23 de dezembro Seu Afrânio espera a família. Irão comemorar o Natal. Seu Afrânio tem 87 anos e convocou a família para escutar. Chegam os filhos, nora, genro, netos e bisnetos. A esposa está só em espírito. Afrânio começa se desculpando por ter nascido. Diz que antes dele o mundo era um lugar encontrado e com ele o mundo se perdeu. Até de joelhos Seu Afrânio é arrogante, entretanto a atitude dura pouco. Mais pensativo diz, Não fui capaz de ombrear minha inconsistência. Quando ela ia à frente eu me atrasava de propósito. Ela, ao ficar para trás, forçava meu passo para me manter adiante. A covardia ou ia na frente ou atrás de mim. Nunca deixou-me vê-la, mas estava lá sempre que eu era. Papai, disse o filho… Deixe-me falar. A covardia era, toda vez que eu acariciava pessoas importantes e humilhava pobres coitados, do alto de uma posição em que me colocou lá um dom ordinário. Ser escritor não fez de mim uma pessoa melhor, e deveria. O mais difícil era ter o que contar, enxergar alguém chegar, muito mais do que a estrutura. Necessário é criar um enredo como aquele do assassino pego enquanto jantava no restaurante, ao lado da casa da vítima, lembram-se? Riu com vontade. Todo dia sinto ânsia de ter outra consciência, não ligar. Ou ter tido outra vida. Evoco os meus erros. Nenhum deles foi o bastante para me fazer aprender, nem com o passar dos anos. A emoção fecha a garganta do velho. Os bisnetos a esta altura correm pelo apartamento. Os netos tampouco se interessam pelas reminiscências culposas do avô famoso e vão ter com seus smartphones de última geração em um canto qualquer, fotografando e postando os prêmios do avô. Só os dois filhos suportam a humilhação do pai, comovidos. Eu, continua o velho, maltratei o motorista de táxi em Milão e quantos outros. Roubei de um editor e de tantos outros. Desfiz a amizade com Juarez e Meu Deus, trai sua mãe, tive um filho. Havia algo de pernicioso em mim antes mesmo do sucesso que foi intensificado pelas nuances sutis de ser reverenciado. Pai, é Natal! Ele não ouve e continua, Sou um diabo de merda! Você é um autor Best-seller, pai. Afrânio tenta se levantar e tropeça. O homem já não enxerga bem. O enfermeiro jovem e devidamente uniformizado que a tudo vê e ouve o ampara e o coloca para sentar. Quando eu disse não pela primeira vez, Afrânio está mais calmo, não foi para a entrevista em si. Foi para mim. Eu temia se ficasse conhecido ter de me explicar. E eu não sei me explicar. Com a fama passam a cobrar você, julgar você e eu queria ser livre como o personagem do conto do Fonseca, do roman noir, você leu? minha filha, o protagonista é vítima e assassino ao mesmo tempo. Eu adoro o Fonseca, melhor e maior que eu no estilo, certamente. De tanto insistir comigo, a jornalista me convenceu e dei a primeira entrevista, e passei a dar mais entrevistas do que escrever. A dar mais opiniões do que criar histórias, a aparecer mais na TV do que nas livrarias. Depois de O Frei que me enganou virei presença obrigatória em congressos e uma sombra. Quando dei por mim vivia um hiato irrecuperável e me passaram novos escritores. Um escritor não leva nada da vida. O meu amigo Juarez, por exemplo, as ilustrações que ele ainda faz não o traem como as palavras traem a mim. Vejam esta, mostrou um pedaço de papel que trazia à mão desde o início da conversa, Juarez fez este menino com apenas 8 anos. No meu ofício não, nem sempre entendem o que eu quero dizer, cada um percebe de uma maneira o que escrevo. Pai, literatura não é matemática, o filho não sabe mais o que fazer. Eu escrevi coisas tristíssimas que fizeram as pessoas rir… Ele ri e tosse junto. Como pode? Os filhos riem também. O almoço está servido, interrompe uma peruana simpática que trabalha no apartamento do velho. Ela e o enfermeiro moram na casa de Afrânio. Comem todos juntos. Tomam um Porto. Dois. Seu Afrânio toma três e soltinho diz, Eu prefiro ler a escrever, ler não faz de mim um perfeito idiota. Quarenta anos, quarenta anos e quinze romances, algumas dezenas de contos, crônicas. Escrever por encomenda me matou. Clarice não escrevia por encomenda. A conheci em um sarau na casa de um amigo em comum, sabia Clara? Rio. Década de 1970. Ela estava já doente. Olhou-me e não se aproximou de mim. Logo viu que eu era um excremento. No panteão de artistas como a Clarice figuram Machados e Fonsecas, não Afrânios sem sobrenome. Meu nome artístico foi uma imposição do mercado, só Afrânio, exótico brasileiro regional nativo natural afro indígena, a mulher não parava com os adjetivos... Uma lástima! Álvaro, você leu A Segunda Vida, do Machado? Filho, quem deseja escrever não deve ler Machado nunca. Perde-se imediatamente o ímpeto. Ele intimida. Antes de amá-lo eu o odiava. Li A Segunda Vida oito vezes, li todos os contos do Machado oito vezes, ele é o maior contista que já existiu. Volta depois de um longo tempo pensando em Machado e confessa, Até onde sei, fui melhor amante que escritor. Sua mãe era a razão da minha vida, mas não minha virtude. Perto do mar escrevi em homenagem a ela, um livro fino que não se compara ao tamanho de Estela, é verdade. Bem, não vendeu o esperado, como sabem não sou bom com sentimentos. Gosto mesmo é de matar. Ele ri a angústia de uma vida. A conversa fica instantânea e leve por alguns minutos. Não mais que 10. Trair Estela me fez transparente como uma água viva perdida no oceano. Pai, é isso que eu acho de você, Clara beija o pai. Tomem, meu último livro, Afrânio se gaba. Por isso estão aqui, ele o pega das mãos do enfermeiro, teatralmente. O livro é o melhor desde os tempos de Adão, o bom homem se diverte. E nem foi preciso dar entrevistas. Tales aqui foi quem digitou pra mim, agradece ao enfermeiro do seu modo. O genro e a nora se aproximam curiosos. Vou pagar para fazer o livro, tudo vai sair do meu bolso, e distribuirei entre amigos e na faculdade em que lecionei. Vejam o título, parece bom o bastante? Na história ninguém morre. Tosse outra vez. Vocês hão de se orgulhar de mim...



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