• Natascha Duarte

O segundo sonho

Falar do primeiro eu não vou. Uma mulher tem de fazer valer suas não vontades. Não tem sentido falar sobre uma coisa horrenda que me fez desejar que caíssem bombas sobre a raça humana. Ao acordar fiquei mal como um passarinho preso na gaiola de onde se ouve o piar melancólico. Não fosse minha enfermeira me socorrer quando os gritos começaram teria infartado. Mas esqueçamos o maldito que se recolheu em mim quando de minha distração e passemos ao próximo. O segundo está mais para baile de Carnaval. Repentinou quase na hora de acordar, olhos rapidando no movimento orbital e me fazendo esquentar. Da emoção que senti, diria um poeta argentino, ou seria filósofo inglês? que “o bom da literatura é inventar”. Algo do tipo... No sonho inventam por nós os nossos pensamentos mais escondidos e estupidezes e assim como nos livros, projetam também criações autorais personalíssimas. Explico, eu sonhei: estava sentada em um daqueles alpendres de minha juventude que faziam a vez de porta-bandeiras das casas ao se irem na frente, desfilando. Nos meus pés, vermelho de cera. Uma brisa refrescava a manhãzinha sem sol e eu, afundada na cadeira de metal com estofado em couro, via o tempo passar. Dois portais de concreto pintados de branco ornavam a fachada do alpendre e alguns elementos vazados, como tijolos esburacados, serviam de meia parede conferindo certa elegância. Verdinhas, algumas espadas-de-são-jorge alertavam quem entrasse na casa como dizendo “Põe alma nisso!”. Era eu sem rugas outra vez. Despida de fantasias de cores havia no jardim cimentado, em frente ao alpendre, uma pequena bacia onde nadava uma baleia de ossos e carne. Soube na hora que a baleia e eu tínhamos uma conexão. Medo não senti mas me vi sem amanhã. Fixei no bicho. Me entreguei como um bebê fora do berço. Esperei. No oceano inteiro de ondas revoltas, altas e barulhentas ela recebeu meu carinho e um nome, “pavê de pêssego”, e ao ir embora convidou-me a ir com ela. Foi o que pareceu. Bastou o pouco para que eu me atirasse de cabeça na bacia. Se não agora, quando? vivi já tantos anos... devo ter pensado ao cair no meio do mar e me afogar. Sem ser peixe eu asfixiava, a água pesada sobre meus ombros enchia meus pulmões, a gravidade me levava pra baixo. Na vastidão insondável daquele além mundo só me restou forçar os pulmões numa tentativa última de me socorrer. Abrandei a mente, calma! Calma! E encontrei meu jeito de respirar debaixo d’água. Em momentos pares eu sabia que eu não era ela, em ímpares eu me via como a baleia, e nos dois não queria acordar. Nunca mais. Ir com ela era o que importava. (Mesmo em nossa velhice nada nos distinguia, eu e meu esquecimento menos especial e ela, velha e tola como eu, instintiva e independente de quando, de como ou até mesmo de quem. Eu era o quem da vez). Quis trocar de lugar. Desejava filhos com o mar. Pariria baleinhas inomináveis, inumanas e orgânicas, todas elas saídas da grandeza do meu extraordinário ser. Eis que a poucos metros de mim ela me engole, violentamente. Comeu porque tinha fome e porque agora éramos peixes. Meu fim era a eternidade dela e ao morrer no mar, meu corpo deitado na cama do asilo em que morava, eu encontraria o sagrado. Havia me transformado. Eu, molinha na boca do mamífero, me igualava a uma sobremesa que passa da hora de ser servida e derrete eletrocutada pelo calor. O silêncio vencia qualquer raro impulso por sobreviver e a ausência de vibração não punia. O correr do meu sangue foi aplacado por uma ternura balofa e eu viajava para a lonjura... Sem querer voltar à velha senhora de antes, o resto de mim repousou sobre a língua do animal esperando percorrer o caminho até o fim, para enfim, ressuscitar no intestino primitivo. Todo meu pretérito se ia. Eu que não tinha futuro mesmo nem senti dor. Acorda! Hora do remédio! A voz da enfermeira me sacudia outra vez, outra vez no lugar onde me esqueceram todos os que me conheceram um dia, outra vez a vontade desalojada de mim. Das tristezas todas de minha vida a maior foi acordar do mar quando nele havia me enterrado.


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