• Natascha Duarte

Oleana


Oleana teve uma ideia. Procurar, ela mesma, o mágico da cidade e pedir a ele algo muito especial. Tudo o que precisava era encontrar o marido. “O Mágico”, como era chamado, andava sumido. Muitos davam notas de seu paradeiro, embora até aquele momento tudo não passasse de especulações:

_ Está com a irmã, na rua Santana das Antas, número 26, no Bairrinho…

_ Morreu! Tísico!

_ Namora a Carla, a prima da Ana, da rua de baixo, e vive por lá dormindo de dia para apresentar-se de noite.

É verdade que o mágico trabalhava muito, sempre à noite e mais nos finais de semana, começando pela quinta-feira. Fora isso, tudo o que diziam sobre o seu paradeiro era mentira.

Desde que o Circo dos Artistas de Júpiter o trouxera com a trupe, anos antes, e o mágico resolvera ficar, essa era a primeira vez que não se tinha notícias dele.

No show de estréia ele se transmutou, na frente de todos, em um pequenino homem. A apresentação entrou para os anais da currutela. O mágico fora assim acolhido, e desde então, por ali permaneceu.

Se pensassem bem teriam desconfiado. Ninguém sabia seu nome ou o nome de sua família. Ninguém sabia de onde ele vinha.

Na ocasião em que diminuiu de tamanho no palco, uma mulher o pegou do chão com extremo cuidado e o levou para casa dentro de uma sacola a fim de cuidar dele. Nem o mágico nem a mulher sabiam quantos dias duraria a mágica. Tudo o que fizeram foi esperar.

Ao se levantarem num dia qualquer e olharem-se no espelho, lá encontraram o homem, subitamente, alto de novo. Uma vez frente a frente - e do mesmo tamanho - apaixonaram-se. Oleana pode ver os detalhes do rosto dele, as sobrancelhas escuras e francas, o contorno da boca espessa, a testa profunda…

O mágico, sem demora, transformou um pedaço de papel em um convite pra jantar enquanto, em um passe de mágica, uma completíssima ceia tomava lugar no quintal lá fora e Oleana via surgir um formoso vestido de noiva, todo rendado.

Verdade seja dita, eles morriam de amor um pelo outro.

O amor acrescentava algo a mais às mágicas de O Mágico, que foram ficando melhores e mais ousadas.

Coelhos saíam de sua cartola falando; a casaca nova, confeccionada por uma costureira da capital, dançava enquanto ele batia palmas; flores de pano viravam estrelas no céu e houve shows em que ele pegava as contas de luz dos presentes, tendo anunciado antes que precisaria delas para o número, e as devolvia quitadas.

Oleana, extasiada, pedia ao mágico-marido frutas frescas, pão, vinho e ganhava dele longos e radiantes arco-íris.

Autoridades locais falavam em levá-lo para fora do país, em apresentá-lo ao Governador. O padre, de olho numa rifa com milhares de números, cujo vencedor receberia de prêmio uma mágica inédita, feita sob encomenda, aproximava-se dele com interesse.

A vida conjugal corria às mil maravilhas e a esposa emprenhou-se. Preparava o quartinho quando O Mágico desapareceu…

O que trouxe o mágico como o vento, como o vento o levou. 25 anos se passaram sem nenhuma notícia, sem um único dia em que Oleana não chorasse um rio. A mulher não se alegrava nem com as conquistas do filho. Este, já adulto, não suportando a tristeza da mãe, partiu esconjurando as besteiras que contavam a respeito do pai.

Os antigos davam detalhes da careca que viram surgir na cabeça do mágico e dos perfumes que ele fazia em pouquíssimos segundos, usando pouquíssimos ingredientes.

_ Os perfumes vinham em frascos de vidro italiano, de cores e formas imponentes, tinham laços de cetim, contendo cada um um nome; nomes que o mágico adivinhava entre os ganhadores do Bingo que ainda nem tinha começado, diziam incrédulos.

O filho do mágico por pouco não enlouqueceu.

Enegrecida pelas horas diárias em que ficou à porta de casa esperando debaixo de sol pelo amor de sua vida, Oleana sentiu saudades do cabelo vermelho que ganhou de presente no aniversário de 20 anos. As madeixas demoraram meses para voltar à cor natural, enquanto ela ia descobrindo ser uma parte do sol, ou como desconfiou mais tarde, um filete que escapou do inferno.

Velha de esperar, saiu para procurar o marido num dia branco. Foi sem queixume, despida de qualquer escrúpulo e vestida de honra. Bolsinha de tecido costurada artesanalmente, passou pelo largo portão de casa dando bom dia à roseira, sua preferida no mundo. Levava nas costas umas mudas de roupas.

Diante da prefeitura - a cidade havia se emancipado nos últimos anos - arrependeu-se do rompante que teve no café da manhã que a fez brigar com a vida, e arrumar a partida. Porém, continuou com tudo.

_ Ele não me abandonou, dizia aos que encontrava pelas ruas. _ Foi isso mesmo que aconteceu, uma estrela o chamou? perguntava logo em seguida.

Cada aniversário do Carlinhos Oleana imaginou o marido voltando, colorindo o ar, dando os famosos pulos de 20 metros de altura com um simples impulso do chão, levitando sobre linhas imaginárias para diversão das crianças.

_ Ele pode ter ido para outro planeta trabalhar, dizia. _ Você seguramente não conhece o meu marido, algumas vezes ela ficava brava. _ Você conhece O Mágico? É para a festa de aniversário do meu filho.

Os pés cansados a levavam pelas ruas esmaecidas pelo tempo enquanto ela colhia impressões mais do que respostas. Árvores retorcidas e secas na rua mal aproveitada, pessoas mal vestidas, gente mal falada. A cidade virava um chiqueiro, marginais por todos os lados, roubaram primeiro a bolsinha, depois a marmita e as mudas de roupa. Em algumas semanas Oleana andava nua.

_ Abusaram dela, foi? perguntavam os que a conheceram nos bons tempos.

A prefeitura a recolhia à casa de repouso e toda vez ela fugia.

_ Não tem mágico na cidade. Levanta, querida, dessa calçada imunda.

Os olhares deles a estavam matando. Oleana lutava a própria luta e não iria desistir. Decidiu ir mais longe.

O pai, falecido, aparecia para ela. À beira de um precipício ele caçoou de Oleana. Oleana isso, Oleana aquilo, Oleana destrambelhada, ela ouvia sem parar. Ao lado dele ela se sentou em uma dessas ocasiões e ficou dias sem se mexer. Decidiu ir mais longe ainda.

Quando a mulher finalmente encontrou o marido, quase onde o mundo dobra e faz a volta de volta pro começo, perguntou seu nome. E pediu que ele a fizesse desistir de continuar agindo como um cachorro acovardado.

_ Agora! ela ordenou.


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