• Natascha Duarte

Orquídea selvagem


Anete me desencoraja a escrever. Vulgar demais. Sempre falando alto. Dizem que se deita com qualquer um. É verde quando passa na rua e toda gente olha, mulheres, homens, crianças até. É que tem balanço aquele quadril, e carne, muita carne fresca. Gente madura não é assim, não tem carne e é preferível passar despercebido quando se é velho. Anete não, ela quer uma vitrine para se colocar perenemente. A conheço de vista desfilando a intimidade que tem consigo mesma pelas ruas do bairro. Pelas ruas do bairro ela se conhece no jeans apertado com detalhes rasgados que evidenciam suas coxas morenas e duras. Ah, Anete, se você não era assim eu fosse sua! Meu Deus, o que estou dizendo? Léguas nos diferenciam. Eu sou uma dama elegante que quase não mais se vê. Ela é o dedo de Deus na ferida do homem. Valha-me! Valha-me! Esse licor. Esse calor. Esse tudo dentro de mim. É porque eu sou sem me conhecer que estou assim confusa. É porque quando chove e vou me deitar Anete se junta a mim. É porque na praça, no banco da praça ontem, eu me sentei ao lado dela e ela nem notou. Perfume barato. Fala desconexa. Nenhuma cultura. Invariavelmente Anete é só ela. Não cabe ali mais ninguém, só a pessoa dela prepondera molenga de ambição, acostumada e satisfeita. Como não querer mais, mulher? Ser mais. Saber. Anete é um querubim, faz o que quer de mim de sutiã cor de rosa choque sob uma blusinha feia e qualquer. Briga comigo quando não me vê, sei que não fui convidada a partilhar um minuto com ela. Cabelos crespos, presença de uma orquídea selvagem. Eu? Diminuta, com tempo de sobra, com vontade de desaguar e morrer. Perto de nós cai uma criança, machuca a mãozinha, chora e de repente, Anete, sincera e apaixonadamente, vai. Agacha no chão, peitos enormes pulando do decote, olhares reprovadores das fêmeas, oportunos dos machos. Cuida como pode do moleque ao que a mãe se aproxima e vira o colo tão esperado. A mãe não agradece a Anete. Era um pouco de inveja. Anete nem liga. Sorri como espuma salgada, não com bruteza, com maciez. Mas isso eu não vou escrever. Compará-la ao mar não me parece certo. Eu disse que não escreveria, todavia Anete é verde quando passa na rua e toda sorte de gente olha, eu inclusive não miro noutra direção e escrevo na minha perna trêmula com os dedos no lugar da caneta, imaginando o papel. Anete faz tudo reviver, transbordar, a mulher inunda o cosmos. Ai como me dói o peito de ontem. Ainda estou no passado. Não sei me levantar da cama, deitada sobre meus minutos regressos, partidos, passados ao lado dela, a verdadeira, no banco da praça. Sofro de todas as dores. Anete é causa da minha dor, eu que nasci para ser esquecida jamais a esquecerei. Concedo à minha frágil liberdade a alforria do objetivo primal, a felicidade; vá! voe! escolho o sofrer. Escolho o meu desejo insustentável enraizado marginalizado impossível irreconhecível permanente, ele me dá mais satisfação do que tudo o que vivi na vida. Ah, Anete, minha Anete.


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