• Natascha Duarte

Pedras no feijão

Hoje mais cedo no supermercado fiquei entre três estranhas na fila do açougue. Foi de repente que uma delas começou a conversa. Disse que lavava a carne moída antes do preparo, assunto suficiente para que outra emendasse, o que!?, eu nunca fiz isso. A mais alta delas falou que veio do Nordeste há uns 12 anos. E contou... A mais baixa, disse ter vindo de lá também, há menos tempo, uns sete anos e reconheceu o lugar de partida da conterrânea. Falaram sobre a vida longe de casa. A mais senhora de nós, lembrou-se de antigamente, de quando haviam pedras no feijão cru. Eu me lembrei também e entrei na conversa, falando que quando eu era criança minha avó catava feijão ao pé da mesa antes de deixá-lo de molho de um dia para outro, para somente depois, cozinhar. Foi como ver minha avó no meio do mercado. Deu saudade dela e daquele tempo. No pequeno lugar éramos as quatro, realísticos exemplares brasileiros ao falar sobre o preço da carne, da energia e sobre o desemprego. Eu fiquei surpresa com a mulher que lavava carne moída e perguntei como e por que, se vai tudo ao fogo. As moças mais jovens nunca tinham ouvido falar de pedras no feijão e o recorte feminino se fez ali mesmo, com ajustes de idades à parte, mas com todas cuidando dos afazeres domésticos, antes de prepararem o almoço do dia; o que me fez constatar que ainda ocupamos o lugar de sempre. Mesmo depois de queimar o sutiã e pregar o sexo livre ouvindo rock and roll. Não que eu reclame. Mas tudo depende da mulher de maneira secular, e em um momento ou outro, volta para nossos braços fortes. Eu e minha novas amigas cuidamos, cada uma, do seu núcleo particular, e ainda trabalhamos, e muito. Duas delas fora de casa. Como conseguem manobrar? O tempo sobrava na espera da grande fila, então, falei de gatos aparecidos. É que lá em casa tem havido muitos gatos, machos, fêmeas, fêmeas grávidas e até com filhotes. Adotamos recentemente um pequeno que foi trazido pela mãe, demos guarida aos dois. Seu nome é Hanulpho, em homenagem ao gato do livro do meu finado pai. Mas não disse isso a elas. O meu Hanulpho é igual ao gato do livro, um portento de espécime, inteligente e raro, só que o meu não anda sobre as patas traseiras, nem consegue ler ou escrever como o Han do papai. Gato “aparecido” é um jeito poético de se referir aos gatinhos que não são exatamente um plano da gente. Simplesmente vêm. Foi minha vizinha Carmelita quem primeiro usou o termo e eu peguei pra mim. Palavras novas ou antigas usadas de um jeito novo ou antigo são uma fascinação. Como não podia deixar de ser, politizei com as meninas sobre a importância de uma campanha da Prefeitura para recolher os bichos da rua, castrar e providenciar a adoção; ou até mesmo voltar os animais aos logradouros públicos, mas castrados, para que o ciclo de abandono não se perpetue. A exemplo do que faz responsavelmente a Prefeitura de São Paulo. Só depois de muitos gatos “aparecidos” em casa é que descobrimos o quanto as gatas são férteis, com disposição quase permanente para a cópula. Sim, são poucos os episódios anuais em que a gata não está no cio. Ela vive para procriar podendo ter mais de uma ninhada por ano, e os filhotes vão passar frio e fome, e passar doenças para os seres humanos, se ninguém cuidar deles. Sugeri o projeto na rede social da Prefeitura e pensei em um nome. Escrevi que me voluntario a ajudar. Ainda não obtive reposta. Nesse meio tempo, meus filhos acharam outro gato bebê, mas também não disse isso a elas. Dessa vez na rua, e o trouxeram energicamente pra dentro de casa. Não enfartei por pouco, nada pude fazer. Os meninos sentiram que sua atitude mudaria o mundo. Salvamos uma vida, mãe! Depois da fila da carne, continuei pelo supermercado. Comprei alho, atum para a maionese, sopa de cebola e uma caixa de café de máquina para o meu filho mais novo. Ele tem oito anos e em nome do amor que sinto por ele, rompi com minha ideologia e revitalizei a máquina de cápsulas poluentes, que um dia comprei desavisada, e mais tarde arrependida, guardei para nunca mais usar. O “Be” experimentou um sabor novo na escola, na cafeteira da coordenadora, e amou. Mas só dessa vez, viu filho? Combinamos que vamos procurar outra máquina, como aquela da casa de praia das férias, com sachês de papel ao invés de cápsulas plásticas. Tá bom, mamãe, mas toma um café ai vai. Ele fez um pra mim e ele mesmo tomou um monte. Agora, não para de se mexer.



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