• Natascha Duarte

Quase ninguém lê?

No museu da Cora Coralina, na cidade de Goiás, os guias que acompanham as visitas contam que ela dormia com papel e caneta em sua mesinha de cabeceira. Uma vela e caixa de fósforos. Anotava as coisas quando elas vinham, sorrateiras, de madrugada, prendendo a inspiração para não deixá-la partir. Sabiamente escrevia palavras, ou uma percepção, um sentimento, anseio, medo, qualquer coisa que a fizesse, mais tarde, voltar àquilo e concretizar maior o papel. Hoje quase ninguém lê. Os mais jovens estão na internet. Os maduros trabalham feito loucos para pagar as contas e sentem sono. Os velhos, bem os velhos, foram perdendo a visão e a paciência. Entre os meus amigos, os assíduos têm de 50 a 60 anos. Não mais. Nem menos. A moda é podcasts, vlogs, vídeos, o youtube. Celular e Netflix, desse último eu gosto bastante. Tem jeito de existir algo melhor que o cinema? Livros. Sim, são ainda melhores. Coralina, você gravaria suas poesias para ficar mais possível para os “leitores” do mundo de hoje? Eles deixariam de ler-te para te ouvir e ainda assim seria você, não é mesmo? Euzinha tenho um blog, é uma vontade de escrever que dá na gente, mas quase ninguém lê. Você não acreditaria nos dias de hoje. Livro não é mais papel. Cora, eu sou demais os tempos antigos para esquecê-los, posso estar sofrendo do mal de não me adaptar ao momento, isso acontece com muita gente vez ou outra. Uma que outra vez passa. Ou não. O que me conecta, usando uma palavra atual, são meus filhos, eles brincam e caçoam de mim provocando minha alegria e a ruptura com o velho. Novidades também fazem bem. Meu filho mais velho gosta muito de ler mas prefere jogar videogame. Já estipulei regras, rodízio, trocas, mural de horas, esculturas de argila e até horta. Ele diz que é o DNA da geração dele. Agora comprei um teclado. Mulher do céu, eu sou preocupada demais com essa meninada. Fico histérica pensando na educação deles, nos métodos de ensino, em todo o sistema. Os tempos correm esquisitos por aqui, tem um vírus que fez o sorriso das pessoas ficar escondido atrás de um pedaço de pano. Só os olhos aparecem na cara, o resto está encoberto. Os olhos viraram o espelho da alma de verdade, não apenas na frase famosa. A coisa foi tão feia que fez com que as escolas parassem de funcionar e o comércio, os aviões, os abraços. Tudo fechado, gente perdendo o emprego e a razão, mas fez surgir de repente muitos escritores também, escritores que promovem suas palavras na rede. O coração está em migalhas e isso certamente fará surgir grandes livros na beirada do futuro. Esperemos. Hoje é o primeiro dias de férias escolares dos meus filhos depois de meses de ensino à distância, adotado pelo Conselho de Educação do nosso estado, em razão da pandemia. Entrei num site de tarde e vi uma matéria interessante sobre os 30 melhores livros infantis, publicação de uma revista sobre educação e comportamento infantil. Vou me sentar com os meninos e encomendar os escolhidos deles. Depois fiquei sabendo pela editora do blog, quase na mesma hora que comentei no site, que a lista não contempla a faixa de 13 anos, idade do meu mais velho. Ela sugeriu outros autores para ele. Incrivilíssima a eficiência da comunicação internética, não? Talvez você tivesse gostado. Pensar nos livros com os meninos me deu, enfim, um pouco de paz. Tem uma linha da Alice Munro que diz que as árvores não são apenas plantas, e sim entidades enraizadas no solo. Simples, infinito e impactante demais para não ser percebido por todos. Concorda comigo? “Eu sou a dureza desses morros, revestidos, enflorados, lascados a machado, lanhados, lacerados.” Essa é você na abstração incomparável da sua arte, seu maior ato de fé! Tenho tido algumas ideias ao dormir. Deveria anotá-las também porque logo que acordo, no outro dia, já não tem nada lá.

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