• Natascha Duarte

Que Páscoa é essa?


É Páscoa afinal, e para os que acreditam e para os que não creem, Deus existe e está vivo! Eu O sinto em cada criança que nasce, no dia que vinga, no botão que floresce. São gestos de amor que provam sua existência. Mas Ele deve estar cansado de nós. Povoamos o mundo com egoísmo e crises. Então, Deus nos dá o paraíso e saímos por aí comendo bicho vivo? Fazendo guerras. Erguendo muros. Cortando árvores. Mais alguém viu que não tem avião no céu? É claro que viu. A pergunta certa parece ser: O que você está fazendo para mudar isso? Se a resposta for nada, estamos encrencados. Podemos pensar uns nos outros, já ajuda. Covas são abertas em parques públicos. Médicos e governos estão desorientados. A ciência ainda não descobriu uma cura e a visão que temos é de filme de terror. O parêntese que se impõe não sabemos como preencher. Estamos sós sem saber o que nos aguarda. E você nem parou para refletir? Claro que parou. Pergunte-se primeiro: Quem sou eu. Eu sou a que sempre passou a Páscoa em família, a não ser aquelas de quando eu era adolescente e viajava com a turma para curtir. Faz parte! Depois de ter filhos não. Ao me casar voltei para a barra da saia da minha mãe e do meu pai. E voltei cheia de orgulho porque eles valiam a pena. Eu sou melhor que você por isso? Não. A novidade é que nesta Páscoa estamos em guerra e tem exatos trinta dias que não vejo minha mãe e irmãos. E minha família não acabou. Está mais forte que antes. Mamãe escreveu uma cartinha para os netos e mandou pelo meu irmão. Fez brincadeiras, prometeu fazer as comidas preferidas dos dois, planejou viagens e disse estar com saudades. Às vezes algo confronta a natureza humana levando-a ao limite da loucura, assim é na guerra e essa que nos afastou é apocalíptica e de tão inventiva parece ficção. Repete os padrões dos filmes de catástrofe que achávamos uma fantasia remota, mas está acontecendo e de repente as pessoas desapareceram das ruas e as famílias deixaram de se ver. Logo iremos racionar comida, porque vai faltar. Você já pensou nisso? Pode faltar gás de cozinha, coisas nos mercados, pode faltar tudo. A guerra atual não é bélica, não estamos buscando conquistar territórios, invadindo ou lutando por razões econômicas, não pretendemos exterminar sadicamente um povo. Pretendemos? Quanta vergonha nos acompanha desde sempre. As lembranças desses dias vão nos atormentar por muito tempo embora nem todos entendam o que se passa exatamente, nem eu, porque estou aqui no recôndito do meu lar, e faço o que para ajudar? Absurdamente paradoxal. A batalha é invisível e muito já foi dito sobre esse maldito vírus mas onde se aloja nossa coragem em momentos assim? Precisamos pensar em mudar o curso do consumo, da produção, da matança de animais, do desmatamento, da poluição, do destino do lixo, do egoísmo e da falta de solidariedade. Também não tenho meu pai aqui comigo. Ele foi para o céu antes da hora (nunca é hora, não é mesmo?) vitimado por uma doença cruel, e antes disso tudo começar. O que conversaríamos, Pai? É bem possível que ele me dissesse: Feliz Páscoa, minha filha!

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