• Natascha Duarte

Quis ser o sol

Para Fátima que havia acabado de se separar do marido a chuva era pouco. Entreviu na paisagem parada da manhã de sábado algo importante no ar. O que seria? Adiantou-se ao mercado com uma lista nas mãos: camarões, café de máquina, shampoo. Nada de trovão. Era manhã azul. Usou a água caída como desculpa e lavou a alma do ressentimento fluido de mulher descasada. Deixou-se molhar e foi com vagar até onde precisava ir, com moderação, porque é assim que queria viver. Tinha essa utopia com ela. Só ia se fosse feliz. Em casa fez café da manhã para tomar ao meio dia. Nem almoço bom nem ruim. A camisola ficou inteira no corpo de dia até de noite. Ninguém havia por lá pela primeira vez em anos, então aprimorou e fez nada com gosto. Sem demora viu-se brava com o mundo, lugar frio e sem compaixão. Aglutinou pensamentos pesados e em um ensaio, algo entre ser forte e fraca, entre seguir e desistir, viu que a rondavam a desconfiança e a apatia. Ficou tênue como um desmaio. Ela era igual ao senhor que conhecera na loja de roupas dias antes, sonhou. O rosto dele trazia as marcas dos desafios diários e os olhos a coragem de um jovem. Para gente como eles a chuva são lágrimas de Deus que fecundam a terra. Deus chorava aos cântaros para o deleite da terra e para Seu próprio martírio. Um pedaço da manhã, a tarde e a noite inteirinhas quando o chão agradeceu e Ele sozinho sofreu. A gaita do irmão-quando-menino tocou o momento intimista. Como no instrumento tudo são notas agradáveis nem foi difícil para ela musicar. Deitada na cama barulhou para Deus ouvir. Invadiu o Senhor com suas súplicas, ei, precisamos de uma segunda chance aqui. Tempo só dela e Dele, tempo de acertos e espera. Véspera da véspera da véspera de alguma coisa... O que será? Como sempre em todo o sempre estava a humanidade a buscar o minuto seguinte. Então, uma esperança redonda surgiu, quando os foguetes começaram, mas foi logo desfeita quando ela atirou-se de volta ao seu egoísmo mais distraído. Alguns acreditavam que o Apocalipse se aproximava. Não ousou desvendar ou inquirir. Por via das incertezas, e como eram “adubo de gente” todas as gentes, Fátima foi ver como o outro estava. Ligou pra uma amiga, mandou mensagem pra outra. Não se desviar do bom caminho, não se desviar, repetia às amigas, incrédula. As pessoas não são boas, não são, concordava com elas. Cambaleou por não entender as coisas do existir e sentiu-se embaraçada pelo avesso. Quando é que estaria pronta? Não fez ideia. Chorou-se. Sem outra opção, abandonou a pensação profunda e falou para fora de si, é pra frente que se anda. No desmaiar do dia imaginou o caderno de anotações do próprio Deus, retocado, rasurado, ora perdoando, ora também. O caderno Dele sim, uma coisa de Rei. Pediu a Ele um bocado de “enquantos” com toda fé que conseguiu reunir, pois que se a intenção for fraca o pedido avua. Convalesceu só de pensar que se descuidar tudo acaba. Viu a lua nascer. Quis ser o sol.


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