• Natascha Duarte

Riverside é aqui

Melinda morou em Riverside há 20 anos. Na bela e ensolarada Califórnia. Foram só dois meses mas morou. Ela e o marido recém casados estavam em busca de novas versões de si mesmos. Mas o sonho de Melinda foi interrompido quando ela se viu inadaptada ao mercado de trabalho “para imigrantes”. Fechou-se também para a possibilidade dele, em algum momento, melhorar. Mais ela do que o marido sentiu saudades de casa e ele reclama do retorno prematuro até hoje. Voltaram pouco depois de 1 ano e foram felizes de um jeito desencanado enquanto estiveram lá. Ela conta que as pessoas costumavam cumprimentá-los mesmo sem os conhecer. Falavam bom dia para o casal de brasileiros no supermercado, e não era só na fila. Ao descer do carro, no estacionamento, lá estavam elas sorrindo e acenando. Da Califórnia, Melinda e o marido mudaram-se para Atlanta e não me perguntem o porquê. Risos. A experiência não foi menos expansiva na costa leste com pessoas na Target opinando animadamente sobre suas compras. Ei, que coisa bonita aí... No drive thru do banco os encontros eram inusitados. No pouco tempo que se gastava na operação, o estranho no carro da frente falava alto para Melinda ouvir. E conversavam. A ida ao “Detran” então, soou exótica tanto quanto deve ser exótico morar na lua. A sede parecia uma casa de bonecas de tão pequena, com poucos e eficientes funcionários. Havia um formulário para preencher, uma máquina para o teste de visão, um computador para tirar a foto; isso tudo e até agora em pé mesmo e no balcão. A prova teórica mais adiante. Aprovados nela faziam a prova de volante e se aprovados, saíam de lá com uma carteira de motorista provisória. Melinda conta que olhavam para ela e diziam Oi, que dia lindo, não é mesmo? O mundo não continua mais tão amistoso. Existem barreiras intransponíveis e disputas políticas. Não se pode escolher onde viver em um planeta que carece de consciência. Perdemos muito do que antes nos aglutinava e agora nem podemos nos tocar. Copiar o que deu certo, isso nos aproxima, diz Melinda reiteradamente; e por isso a vemos empenhada em contribuir com sua singela experiência. Ao recitar pela milésima vez a história, Melinda exerce sua cidadania e defende espaços públicos com pequenas sedes, descentralizadas e desburocratizadas. Bem certo que Nelson Rodrigues classificasse a mulher como uma vira-lata pelo fato dela recontar a vida americana que teve um dia. Mas seria possível um outro olhar, revisitar o célebre conceito? Talvez a admiração de Melinda pela eficiência e amabilidade americanas não seja um traço de submissão cultural. No artigo “O Elogio do vira-latas”, Eduardo Giannett revira o lugar comum e nos convida a achar louvável nossa miscigenação. Diz mais ou menos assim: os primeiros brasileiros nascidos de conquistadores com africanas ou índias nasceram com uma sensação de não pertencimento, que os acompanhou até a vida adulta, e se instalou em todos nós como um sentimento de inferioridade. Eles eram os filhos da vergonha, bastardos, sem identidade definida. E vai além, ao considerar essa mistura uma vantagem, não o contrário. Giannett enxerga no caldeirão cultural que nos forjou uma qualidade que fez criativo e original um povo “desrraçado”. Melinda parece concordar com ele e frisa que também incorporamos componentes identitários dos irmãos americanos, na música, nas artes, nas ciências. Não na eficiência. Morar em outro país fez Melinda enxergar verdades que valem para ela até hoje. As pequenas cidades americanas não são muito diferentes das brasileiras, só são mais ricas. E ser mais pobres não é defeito. Só não podemos ser mais burros, finaliza cheia de si.

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