• Natascha Duarte

São João


A festa junina da escola era um acontecimento esperado por todos, o ano inteiro. Cada membro da organização da festa recebia uma tarefa planejada e cumprida com rigor. Da parte alimentar cuidava Dona Olinda, a merendeira; da música, o locutor da prefeitura que nas horas vagas fazia bicos como DJ; da coreografia, a professora de Artes, Isabela; e a João, o Diretor, cabia punir exemplarmente os alunos que faltavam aos ensaios da quadrilha.

Aninha estava já na sexta série. Para ela, portanto, era facultativo participar da dança. Mas para os menores participar da atração era uma obrigação, se não a festa deixava de existir. Bastava os que não a frequentavam por razões religiosas se juntarem aos queixosos de plantão, aqueles que reclamavam do preço, da hora, do dia, da indumentária típica, das músicas, etc., que a festa desapareceria do mapa.

Com vontade de correr para adiantar o tempo, a menina chegou à escola com o coração na mão, a mãe e a irmãzinha. Finos braceletes dourados ornavam seus braços inocentes. No cabelo ondulado, fitas de cetim. Era bela como a flor de um vestido nunca usado.

Justo ela que adorava moda e vivia às voltas com as revistas da tia e as costuras da avó, agora parecia uma rainha na roupa emprestada da prima. O único toque junino permitido pela mocinha ficou por conta da pinta preta, no canto esquerdo do rosto, feita com lápis de maquiagem.

Seria a primeira vez que Carolina e um tal garoto se veriam mais de perto. Seria a primeira vez que se beijariam, e ela meditou o corpo do menino junto ao seu. Um arrepio grosso percorreu suas pernas.

Aquilo de festa este ano - riso, música, comida - perturbava a menina que procurou paz na bebida e comida, ambas suas aliadas. Uma secreta. Outra nem tanto. Foram muitos copinhos de quentão e outros tantos de canjica.

A bebida quente foi ajeitada por um amigo de Carolina. Mais velho, Tiago era o terror da escola e o oitavo ano nunca mais foi o mesmo desde que ele ingressara no Grupo Estadual Jerônimo Cantão, atrasado dois anos.

A menina sorvia com vontade o líquido viscoso enquanto de suas axilas brotavam gotas de suor que deslizavam plácidas pelo vestido azul. Mas ela não se incomodou. Ao contrário, sua fragilidade a nutriu como um troféu escondido no armário, alimentando um certo prazer sonoro. Carolina balbuciava umas palavras indecifráveis.

Para alcançar um desejo, Carolina aprendera com a mãe a fechar os olhos e pedir com fé e sem parar; e foi assim quando ela viu Moisés pela primeira vez, no supermercado, de chinelo e sem camisa.

_Seja meu namorado, seja meu namorado, pediu com força por um mês, todos os dias.

Aí falou com ele pelo computador, no início tímida, depois soltinha, soltinha, como um balão que cinge o ar em noite fria de São João.

Em geral, a menina confiava em si mesma. Era com razão que se mostrava na festa ao perceber Moisés olhando para ela. Influenciada pela beleza do encontro que teria mais tarde com o garoto, ela dançava fazendo a saia rodar.

De tão feliz, Carolina teve umas mini convulsões, algo que subia pelos dedos dos pés e a deixava leve. Tiago cutucou a menina e a chamou no canto sem entender o que acontecia. Uma grande parte dela também não entendia o alvoroço que fazia seu corpo latejar, e ela estranhou as amigas nunca terem relatado nada como aqueles tremores.

Carolina era então a própria terra fecunda e dona do mistério que envolve todas as vidas, o amor. Ao certo que pareceu menos menina bailando sob o colorido das bandeirolas, bandeirolas que as crianças da escola, neste caso todas, foram obrigadas a confeccionar.

Apenas uma preocupação afligiu a menina cercada pela celebração popular e pela quentura da fogueira, mais alta do que a do ano passado, e mais próxima do salão principal. Ao falar pessoalmente com Moisés talvez se emocionasse a ponto de desmaiar. O medo a levou de volta à mãe e irmã.

Carolina ganhou bilhetinhos de amor (dois, superando a marca do ano anterior), correu de um moleque que tentava a todo custo levantar sua saia e aos 13 anos perdeu a virgindade, não inteira; primeiro da boca e das orelhas, depois dos fartos seios e nuca, e lá de baixo, com mãos céleres que agiam com o ineditismo de um menino fascinado.

Era 24 de junho. Dia de São João, primo do Altíssimo Senhor Jesus de Nazaré. Haveria de ser com a benção de Deus, combinaram previamente os dois pela internet.

Há cerca de dois dias a menina apareceu no sonho do menino.

Ele contou: Eu, sem abrir a boca, beijava a pinta na sua bochecha. Ainda era festa junina, anjinho.


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