• Natascha Duarte

Saudade do dia em que dançamos juntos

Depois da tatuagem, do vestir só preto, do cabelo curtíssimo e como não falar do outro, o corte moicano e da fixação em ouvir rock no último volume, a filha cismou com uma moto. Deixara a dança pelo karatê. Insistia tanto em ser, aquela menina de olhos grandes. Dezessete anos e uma vontade que anulava os perigos do mundo e convencia quem estivesse por perto. Fez o pai ceder, ele sentia que era hora dela "viver". Foi amoroso demais. A moto novinha era azul, da Moto Four, da avenida Z, e o capacete vermelho, grandão e feio. Deviam fazer capacetes mais femininos, filosofava radiante e ia com a moto até a faculdade de fonoaudiologia, curso que terminou e nunca exerceu e ainda assim para o pai ela era rara. Acabou no chão quando levava uma amiga na garupa, meninas!!! e foi socorrida pelo motorista de uma camionete. As duas chegaram em casa com ajuda do estranho, motoca na caçamba, nem um pio sobre a história. Pilotou pouco e resolveu vender a geringonça que deixava seus cabelos com cheiro de óleo diesel e dava trancos ao mudar de marcha mas lembrava da moto toda vez que se sentia livre como uma reticências... Agradeceu seu pai e celebrou com ele cada dia e muitas aventuras depois. Amavam-se. Com o dinheiro da moto comprou um aparelho de som grandão e feio para ouvir rock no último volume. Para o pai a filha era bela como um abraço de casamento.

Pai, fez-se um silêncio de século em mim, foi como flutuar, ficar sem predicado, apenas sujeito. E só. Custei a acreditar, até hoje não decifrei. Meu corpo adoeceu. Sinto saudade do dia em que dançamos juntos. Amor da minha vida, fique bem!

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