• Natascha Duarte

Somos três vestidinhos pretos

Naquela tarde conversavam os vestidinhos pretos dentro da gaveta. O dia ia tenso e eles estavam nervosos. Um tanto descontrolados para dizer a verdade. Um deles chorava.

Eu não era assim, lamentava o que parecia ser o mais vulnerável do grupo. Houve um tempo em que eu era novo em folha e minhas rendas e bordados negros, tecido vintage e elegante, sensibilizariam qualquer mulher de fino trato.

O que tem isso de rendas e bordados, inquiriu com voz de líder um dos três. Você não é melhor que ninguém, só é importado. Você era novo e ficou velho e abobalhado. Acontece. Eu também sou estrangeiro, remember?

Havia muito tempo que não se reuniam todos dentro do armário, e assim, puderam falar livremente e opinar, cada um à sua maneira, sobre o que acontecia com a dona que, de repente, passou a usá-los sem dó, tirando-os do corpo somente para lavar vez ou outra.

Vir da Turquia em uma mala cheirosa como um presente especial me fez diferente, é fato, e essa que se tornou minha dona é desnaturada e está desleixada para comigo. Não concordam que ela é relapsa, nem nos passa a ferro mais?

Isso de vir de outro país é coisa de-de-de... Dos Estados Unidos da América eu cheguei aqui pelo correio sem fazer alarde, quietinho, uma amiga dela gosta muito da nossa dona. Justo eu o mais desenvolvido e próspero de nós, jogo isso na cara de alguém? Um ser humilde e elevado é o que sou.

Até aquele momento era um na máquina de lavar, outro no varal secando e um solitário no corpo da mulher. Por isso o encontro era histriônico.

Eu mereço mimos. Sou chegado a detalhes e ao luxo, minhas origens me tornam único. Não isso aí de América.

Cala a boca, vestido besta, roupa é pra isso mesmo. Contrariando seu choro egoísta, dear, sinto-me bem mesmo depois de tanto uso; e continuo sendo o que era, um lindo gift de malha fresca e estilo boho americano sem contendas a resolver.

Olhem a baixeza, o terceiro interveio.

Continuou: Que tristeza ver vocês se gabando! A feirinha popular não me fez menos importante. Não temo me ver rasgar ou furar. O que seria melhor, camisolas? Somos vestidos muito amados e por isso nossa dona nos usa bastante. Ou nos usa só a nós agora que não sai de casa. Ficar menos preto não me intimida.

Onde já se viu tratar-me dessa maneira. No meio de tantos presentes que a mãe trouxe para ela da viagem, eu me destacava. Devo ser reverenciado, respeitado e usado em festas, com grandes broches dourados.

Quem usa grandes broches dourados, se isso pega! Nossa dona quer parecer feminina mesmo estando em casa, por isso se rendeu aos belos vestidos que tem. Eu entendo a alma das mulheres mesmo sendo homem. Sou um adorno feminino e quem não tem na alma um pouco de mulher, não é vestido de verdade.

A questão que preocupa é, se ela usa e abusa apenas de nós, vejam bem, ela tem outros vestidos mas não os usa, estaria delirando? Por isso envelhecemos a olhos vistos. Não há roupa que resista a máquina de lavar em ciclos sem fim. Eu não tenho nem cinco anos e pareço bem mais molinho. Mas não estou aborrecido. It’s ok for me. It’s ok.

Por Zeus, que mistério é esse!?

Para mim que nasci vestido pobre e cresci na desigualdade mas trago sabedoria popular, coisa que só quem tem, tem, a verdade é que não é nada, nadinha. Só vontade dela de ficar sozinha consigo mesma.

Ouvi dizer que é algo que veio de muito, muito longe, mas não consigo entender o noticiário porque falo turco.

Como você não entende português se fala conosco nessa língua? Vestido ignóbil.

E mentiroso.

Deve ser o frio.

Ou o calor.

Acho que é a idade, por isso ela lê mais.

Os filhos dela também estão em casa.

É, mas não usam vestidos.

Não diga! Sem paciência aqui.

Ela está mais cansada e diz, quando me veste, que quer abraçar todo mundo.

Mas não é Natal ainda.

Verdade.

Vestido morre?

Acho que não. Vai ficando pra pano de chão.

Quando eu morrer vou sentir saudades de mim.

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