• Natascha Duarte

Toda ela quase em pânico


VIAM-SE EM INTERVALOS CONTADOS NOS DEDOS POR ELA, ansiosamente esperados com perfume e óleo corporal e um ou outro humor novo que ela fazia questão de compartilhar com ele fosse onde estivessem, na padaria, na piscina do hotelzinho, no quarto da casa da prima que há anos vivia em outras paragens. Ao chegar no local combinado estava certa de ser amada. Presilha colorida no cabelo de lado e meio prata de tinta. O coração batia crescendo. Olhou ao redor e corou ao percebê-lo no balcão pedindo por ela, boca fresca, olhos pregados na cor. De vermelho ela era uma deusa. De branco Tiago parecia um santo. Os dois eram jovens e estavam apaixonados. Ela disse que trazia uma surpresa e sentou-se. A xícara de café que pediram foi uma formalidade que levou Camila a aproximar seu corpo do dele e o olhar com amor. O bairro distante abrigava o pecado. Para lá se dirigiam a cada 20 ou 30 dias desde que se conheceram. Esperavam assim não serem vistos mas naquela tarde nada saiu como o planejado. Homem de Deus, quanto tempo! Um conhecido apareceu do nada. Essa linda moça, é sua esposa? Tiago empalideceu. Haviam sido descobertos. Tiago e Camila eram ambos casados, ele com filhos, ela no auge da carreira médica. Baita terça feira ao meio dia, o que inventar? Lucas, como vai?, estávamos aqui absurdamente na parte onde nos reencontramos depois de quantos anos Camila? uns 20 talvez? Não lembro, respondeu ela muito seca. Tiago continuou numa espécie de explicação e riu sem jeito. Esta é Camila, amiga da escola primária. A roda de conversa ficava animada... A médica havia pensado em se separar do marido algumas vezes, não exclusivamente por causa do amante mas principalmente por causa dele. Aí ficou com pena do marido, com pena dela mesma e com pena do mundo inteiro. Descobriu, perplexa, que a pena podia ser a razão das pessoas não transformarem o tempo em algo mais valioso; para ela dó demais era um sentimento sufocante como o verão. Muito cristã, Camila levaria o casamento até sua morte como prometera no altar nem que para isso arranjasse um amante. Foi o que fez há cerca de 1 ano e agora esperava sentada em uma padaria para ser amada. Ela manteve a calma e a cara feia por quase 30 minutos, buscava assim intimidar as intenções do amante em estender a conversa, porém ao ver que não adiantava, desistiu sem lutar. (A tarde no quarto do hotel que ela havia alugado pelo telefone com antecedência para que nada desse errado acabou se perdendo). Sentiu-se desconfortável. Enquanto ela se corroía por dentro o assunto dos homens era eles mesmos como se o encontro fosse algo formidável. Bateram 2 horas no relógio da parede de azulejos toscos e esverdeados de gordura e de pó, e o amante mais se divertia e menos prestava atenção nela. De algum modo isso feriu Camila. Todo o preparo, o novo enfeite no cabelo, a oportunidade já que o marido passaria a tarde em outra cidade só voltando para casa ao anoitecer. Estar com Tiago era um benefício que ela concedia a um homem pela primeira vez desde que se casara e lá estava ele, despido de suavidade entre goles de cachaça e cerveja, cru como carne, vermelho de rir. Ele suava não de amor. Ele falava alto e contava piadas grosseiras sem medo que alguém mais o reconhecesse. O retrato perturbou Camila. Quando a tarde desmaiava devagar, por volta de 4:30, os homens finalmente despediram-se e a mulher teve de volta os olhos do amante. Ela saiu de lá sem entrar no hotel, sem saber como não saiu antes, sem saber o porquê de estar ali. Enquanto entrava no táxi rompeu o frenesi da ilusão que a perseguia há mais de 1 ano e disse para si mesma que enquanto nascesse o sol haveria de permanecer ao lado do marido, e só dele.

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