• Natascha Duarte

Um amigo tão vizinho

O nome dele é Hugo e os meninos o chamam no grito: Hugoooo, vem jogar bola. E ele vem. Aí brincam até quando a briga começa, por qualquer motivo, sem razão nenhuma, e o Hugo vai embora, até a volta no outro dia. Eu tinha esquecido como é bom ser criança e ter vizinhos de muro, de bicicleta e banho de sol. Infância tem gosto de reino e tem justiça com espadas e castelos, nela as crianças têm coragem suficiente para combater o mal, todo ele. Há uma disposição exagerada nessa luta; e há criatividade também, para mim coisa poderosa, tanto quanto a inteligência. O amigo de muro e de tantas aventuras faz minha família aumentar quando está por aqui, é como se eu tivesse outro filho, meus meninos outro irmão. O que os meninos sentem norteia nossa vida, gostamos de estar perto deles e de seus amigos, e sabemos que as crianças são o nosso melhor. O vizinho de muro disse que vai se mudar de cidade e a gente não está aceitando isso muito bem. Sem a buzina da campainha que toca aos sábados e domingos ali por volta das 10 horas, não vai ter graça. Pode ser que ele não se mude. Tenho de perguntar para a mãe, afinal, o Hugo só tem 10 anos e ainda mistura alguma realidade e fantasia de um jeito tímido e bonitinho. Eu tinha amigos de rua também e alguns imaginários. A Estela era a garota dentro da minha cabeça e ela vem me visitar até hoje. Com ela eu converso e falo sobre as coisas, muito honestamente. O bom de ser criança é brincar. Minha foto em preto e branco, a que abre meu blog, é parecida com a boneca japonesa Momo, provocaram os meninos, reprovando minha escolha. Assim, eu sou a mamãe Momo. Perdoem-me se não tem graça nenhuma, eu precisei abstrair a relevância do tema para entender a brincadeira, afinal a Momo é apenas uma boneca, e os olhos dela e os meus, na foto, de fato, parecem grandes. Meus filhos não pensaram demais, e às vezes, não pensar demais é bom quando se é criança. Se eu pudesse, não pensaria tanto também, mas não sou mais criança. Na porta da escola recentemente, os meninos não querem mais me beijar. Eu disse que vou fazê-los pagar mico se eles não me beijarem, um mico maior que o mico do beijo. Vou dançar no quadradinho quando for deixar o mais novo e pintar meu cabelo de duas cores e fazer “bigudinho” (o que é bigudinho, mãe?). Vou falar pra todo mundo ouvir, que o mais velho é um xodó comigo. Eles se divertiram e voltaram a beijar. Ontem o vizinho Hugo não apareceu para brincar. Em família e concentrados no momento, ouvimos a música Índios, do Legião Urbana. Era tarefa da escola do meu mais velho. Acompanhamos a letra no computador e cantamos alto. Aquele teclado me fez viajar no tempo, eu devia ter a idade que o Miguel tem hoje quando fui ao primeiro show da banda, em Goiânia. O professor do meu filho pediu aos alunos que interpretassem a canção. Alvoroço! Fomos a fundo no significado da letra; resolvemos que era hora de pensar bem. Entendemos algum significado, e sentimos todo o resto; não é assim que funcionam as coisas que os outros elaboram pra gente, os artistas, sempre querendo dizer uma coisa através de outra, e de outra? Às vezes para o resto, resta sentir, e sentir é sempre mais importante que entender. “Quem me dera ao menos uma vez ter de volta todo o ouro que entreguei a quem....” E falamos sobre como Portugal levou embora nossas riquezas; sobre como aculturaram nossos índios e sua religiosidade e costumes; e aí o Miguel fez um parênteses lindo, disse que quando os espanhóis chegaram na América do Norte, os índios pensaram que eles eram deuses que cumpririam as suas profecias, e por isso, confiaram neles. Nessa hora eu chorei grande. Aconteceu o mesmo com os nossos índios, nossa gente primeira. De tanto confiar, foram traídos. Era para o Brasil ser só deles até hoje. Era pra gente ser índio também. Uma colher de prata, vimos isso nos filmes, um pouco de vinho, os padres; e conseguiram minar a força da gente antes da gente. A música fala do espelho que fez com que todos vissem o “mundo doente”. Será que nos curamos desde então? Depois de tanto tempo, deu tempo... Eu falava sem parar. Meu marido também. Para o menino de apenas 13 anos, talvez nem tudo tenha feito sentido, mas quando ouvimos “que quem tem mais do que precisa ter quase sempre se convence que não tem o bastante”, vimos com tristeza o retrato do mundo. De ontem. De hoje. Nosso retrato. E o seu também. Sei que o amigo Hugo teria entendido a canção se estivesse aqui, mas ele tinha saído com o avô para passar o domingo no clube. Que benção ter avô pra ir ao clube, né vizinho?





46 visualizações0 comentário