• Natascha Duarte

Um pedaço de nós

Sexta feira. Marido na capital a trabalho o dia todo. Mulher na cidade pequena à espera dele. Mas não só a esperar. Tem diferença. Ela espera porque quer, porque é bom sentir saudade e vontade. Uma sensação de arrebatamento toma conta dela, eles fizeram um plano de vida e estão executando. Arrisca dizer que são felizes. E. Tem um carro no meio do caminho. Para ser sustentável e ser econômico, um carro apenas. Eles conseguem, vai. E tem uma coisa boa, não à toa, um almoço esperando ser feito. Trivial? Camila pediu carne. Não tem. Pediu cebola. Não tem. Alho? Vixi! A mulher nem respondeu e apressou a iniciativa de pegar a bicicleta. Foi pedalando mesmo, já que o carro passeava longe dali. No supermercado fez a compra e pediu que entregassem. Chegou em casa esbaforida e jurou que voltaria a se exercitar. O movimento atípico da dona de casa se deu em nome da realização de uma nova vida, mais suave. Ao mudar para o interior, sabia que as coisas seriam menos superficiais mas não menos complicadas. É tudo igual, diz. Só que mais rápido porque não tem trânsito. Ou mais devagar porque não tem trânsito. Depende da semântica. No trabalho que ela realiza como outra mulher qualquer, ela sente que estaria escrevendo sobre como seria viver no interior, mesmo se não tivesse ido se aventurar. Então, parece ter cumprido seu destino, simples como sempre sonhou, embora não soubesse disso. Agora permite ser o que é de verdade e busca a essência das relações e das coisas. A nova perspectiva trouxe árvores no quintal, piso datado na casa antiga, paredes mal pintadas, mas está ali por escolha, para plantar tomates e tomar suco de frutas do pé. Não quer voltar ao que era. Sua relação com o dinheiro também mudou e o coração está leve, que vou te falar... À tarde, chuva forte, e aquele barulho e a força da água esburacando a grama bem em frente à porta de entrada da casa, tratou de resolver suas pendências emocionais. Ela não se preocupou em mudar nada. A chuva resolveu suas culpas. Acalmou alter egos nem sempre amigáveis. Ensinou que não se pode controlar tudo, nem o buraco feio no meio do jardim. Como se não bastasse a ousadia infantil de andar de bicicleta pela cidade, a mulher foi buscar o filho na escola, de sombrinha, e à pé. Porque chovia, ligou antes para o aplicativo de transporte. 20 reais. Não pago. Menos de 5 minutos para ir e voltar. Poucos metros. Não entendeu a matemática e guardou o dinheiro mesmo que se molhasse inteira. É tudo uma questão de lógica. E justiça. No fim, foi tranquila pela calçada, empunhando uma sombrinha e resgatando cada traço que a fizesse sentir-se igual a todo mundo, a cada mulher que busca o filho na escola, à pé, de ônibus, de carro, porque mães são magia na sua essência alquímica de transformar o inesperado em algo prazeroso. Com o filho pequeno andou pelas ruas, ouviu o respingar dos poucos carros no asfalto molhado, sentiu o parado da cidade, desviou de cocôs amassados de gatos, viu de perto o bom da natureza que chovia. Ela faria tudo de novo, mudaria de novo se fosse pra ser desse jeito. Dar ao homem a retaguarda que ele precisa pra voar enquanto o observa, e às crianças, sua companhia e mão é o que escolheu para si. Ao sair da cidade grande com a família, ela não sabia ao certo se foi corajosa deixando o que a afligia, ou se covarde ao não enfrentar o que a perturbava. Não se pergunta as razões, continua na ativa, seja onde for. Envolver-se é o que ela faz de melhor e lá está ela, envolvida de novo. São novos amigos, outra realidade, nomes e endereços que ainda não decorou. Sem saber o que a aguardava, a mulher descobriu que envelhecer não é tão ruim assim. Pelo mesmo na cidadezinha que elegeu sua.

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