• Natascha Duarte

Uma bela coleção

Tendo lido o livro todo e ao chegar no final da história passando por partes que despertaram lágrimas, tenho lido o livro inteiro da autora extraordinária que ajudou os seres humanos a evoluírem como espécie; no final, Jorge decidiu não devolvê-lo. Os livros emprestados ele não devolvia quando gostava muito. Inventava uma desculpa, construía mentiras, ou em casos em que a pessoa era importante para ele e para não brigar com ela, comprava um livro igual e enviava por um mensageiro. Acreditava haver um elo entre os livros dos outros e ele próprio. Entre as atitudes dos amigos que fizeram vista grossa quando perceberam pela primeira vez a mentira, e mesmo depois da farsa emprestaram outros exemplares a Jorge achando tratar-se de uma excentricidade do colega, e as atitudes dos amigos que ao perceberem o engodo não aceitaram as invencionices do homem ou os livros “steps”, passaram-se muitos anos. Jorge, aos poucos, foi aniquilando algumas relações, salvando outras e começando novos relacionamentos literários. Muito frequente em feiras e saraus fazia amizades com facilidade. Era só dissertar sobre as histórias dos clássicos e com a cara insuspeita de gente boa que tinha, que a confiança para emprestar um livro dominava o ouvinte. Jorge nunca supôs os livros roubados, muito menos um problema pegar e não devolver mas depois de muito refletir, um dia deixou de mentir. Não foi a culpa que levou Jorge a pensar mais profundamente sobre a situação e sim a falta de espaço. Não havia na casa lugar para mais nenhum livro e assim ele imaginava que seu vício teria fim. Passou a dizer com franqueza que não devolveria os exemplares. Começou a colecionar inimigos. Os amigos solidarizaram-se entre si depois que o caso veio ao conhecimento dos mais íntimos e houve até tentativas coordenadas de convencer o homem a mudar de ideia. João chegou a ir até o apartamento de Jorge que não lhe abriu a porta mas deixou o livro do lado de fora quando soube pelo porteiro que o homem subia pelas escadas. Maíra não teve tanta sorte, deixou inúmeros recados no celular de Jorge mas não teve seu livro de volta. Ao entrar em sua sala de estar num dia qualquer Jorge constatou, perplexo, ter milhares de exemplares, todos e cada um deles de alguém outro que não ele mesmo. Muitas mulheres de Jorge, ocasionais, eventuais, mais duradouras e até permanentes (duas) viram o desastre acontecer, o homem acumulando papel e ressentimento a medida em que envelhecia. Ele procurou ajuda de um psicólogo, um amigo da juventude, seu único contato do passado. Nunca é fácil decifrar a mente de um egocêntrico doentio. O doutor receitou terapia para diminuir a sensação de onipresença do homem, e sugeriu que Jorge se colocasse do seu tamanho, “todo homem tem um tamanho e o tamanho do homem é sempre menor que o tamanho de Deus.” Muita terapia depois e Jorge chegou a devolver com bravura uns 100 livros, mas não se lembrava da origem de todos e já estava velho e cansado. Seria impossível fazer a devolução de tudo. Poderiam colocar um anúncio no jornal... Jorge poderia deixar na clínica os livros até que se lembrasse ou algo acontecesse... Não tivesse Jorge morrido do coração, tenho certeza de que teria êxito em devolver mais alguns livros. O doutor não terá este trabalho e ficará ainda com uma bela coleção.

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