• Natascha Duarte

Uma e a outra

Começa

Essa história não é bonita ou prazerosa. Pode doer. Fala de uma mulher que não tem nome e não é uma só. É como uma parte faltando uma metade... Essa mulher tem inveja de outra e quer para si o mesmo corte de cabelo, a mesma elegância; diz as mesmas palavras: com licença, eu o perdoo, não para mim... O alvo do desejo de uma é a erudição da outra, já que classe social não se imita pois vem de muito trabalho? sorte? mau-caratismo? Uma apropria da outra as cores das roupas: tom sobre tom, neutro é chique, mas não, não se olha no espelho. Descontando a inveja que é uma coisa ruim sobra a admiração que é uma coisa boa. Bem, vejamos! A primeira personagem sabe tudo da vida da segunda, ela tem filhos, é casada e dá aulas na universidade (quem?). São 3 os filhos, são muitos os amigos e ela conhece o mundo como a cozinha da casa principal. Estou falando da segunda mulher, o alvo, não da primeira, a atiradora, essa tem ninguém, é solitária e sente dor de viver. Está um pouco confuso isso aqui e eu ainda pioro as coisas aparecendo nas linhas. Vou me conter. De tanto olhar uma ficou obcecada com a outra. Fotos no jornal, notícias em que aparecia com o marido rico, festas que dava, viagens, os dentes. Ah, os dentes. As duas mulheres não se conhecem. Uma dirige o carro em direção a universidade federal em que leciona, a outra não dirige nem a rotina da ida ao mercado. Se a primeira pudesse convidaria o Neymar para um churrasco. Pensamento esquizofrênico: Se eu fosse rica ele viria. Mas era pobrezinha e comeu a carne assada sozinha mesmo. Se fosse Natal a segunda daria uma grande festa para os pobres e os receberia em seu jardim e distribuiria presentes. Assim pagava a conta de sua existência egoísta com O Pai. Mas como não era Natal fez uma reuniãozinha para 50 pessoas, vinhos caros, colocou no jornal, nada demais. Há quem ache o fim do mundo mas quem sou eu para opinar. Olha aí, estragando outra vez! Antes da festinha, a muito fina foi ao salão de beleza e gastou fortuna. Ela não é rica de verdade, o marido planta cana e tem usina, ele é rico de verdade e ostenta. Quando se casaram em regime de separação total, ela não gostou muito do jeito dele mas depois, depois acostumou-se e foi bem rápido. Agora também ela ostenta, e contou em detalhes a procedência dos vinhos importados de um lugar que não me lembro o nome. Ao ouvir das amigas “porra, uau, só você” satisfez suas entranhas. Eu sou eu! Quer dizer, ela é ela, não eu; eu só conto o conto, e como é que sei? sabendo; diria a maior escritora brasileira de todos os tempos e que, aliás, é o que une as duas mulheres, o único ponto convergente nessa história de contrários, onde elas se conhecem em um dia de ruína.

Termina

As duas foram à mesma livraria dentre todas que existiam, uma baita coincidência. Mesma hora, uma em frente a outra, fila para pagar. Momento em que a torta (qual das duas?) viu a mulher maravilha ali quase encostada de tão perto. Deu um grito. Isto é, agora é que a história fica estranha. A copiadora de gentes, a que vive de máscara, gritou alto e em cores e fez com que a dama de coração de pedra se virasse e perguntasse: Oh, aconteceu alguma coisa? Oh, que susto você me deu! De repente o fracasso de Ana ficou evidente para Sofia num simples olhar. Foi preciso um minuto apenas para localizar em todo o hemisfério sul a maior de suas derrotas. Mas a altiva Sofia não se importou com o infortúnio da mulher para quem tudo faltava, carreira, família, dinheiro para o salão de beleza e até um rosto. Virou de costas procurando recuperar o juízo enquanto pagava seu livro ao que Ana, a inliberta, disse: Oh, tudo bem! peço desculpas! é que te acho linda demais. O que me corta a carne é difícil escrever. Sofia fez que não escutou os elogios pra lá de animados da pobrezinha e se foi com severidade. Ir é sempre ruim para quem fica. A capa do livro de Sofia Ana viu bem de perto na hora do caixa. Era o mesmo livro que também ela escolhera para si. Depois: Ana já sente saudade de Sofia, também paga seu livro, sai correndo pela loja, corre ao estacionamento guiada por um casaco bege, corre pela rua sem ver nada além do ponto em comum, a similaridade, algo que faria o coração das duas ser um só - o livro e, e encontra um caminhão de entregas que não viu chegar, não ouviu buzinar, não percebeu atropelá-la até o fim. E paz.








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