• Natascha Duarte

você fala que é Doutor

Aconteceu comigo. Quinta passada. Depois do café da manhã com mais proteínas que de costume me pus arrumada para ir ao cartório. Uns quilos extras insistem em grudar na minha carne e assim, redondona, saí de casa. Pretendia chegar na hora boa. Acabei chegando com ele lotado. Encolho!

Pego senha. Me sento. Sem nada melhor para fazer exercito minha paixão e tento transpor para o papel o que havia imaginado ser um bom começo de poesia. Eu penso que sou poeta, e é um pouco melhor para mim trabalhar no escuro da noite. Mas fico nervosa de dia e de noite, e geralmente não consigo criar, nem ouvindo música.

Escreve, escreve, escreve até alguém saber que você escreve. Tem essa voz no meu ouvido que nunca abaixa. Obediente, pego lápis e papel e poetizo na inércia da sala austera. Após uns rodopios da minha mente vejo escrito no papel a palavra “tartaruga”. Sem conseguir ir adiante, boto tudo, palavra, lápis e papel, de volta no fundo da bolsa.

Um zum zum zum vem me encontrar. Acordo para a realidade do cartório.

(cara qualquer) Fala que você é médico, que tem plantão hoje à tarde em Brasília.

Entraram três homens.

Tudo no cartório lembra um hospital, os guichês, as cadeiras, a burocracia, inclusive as imagens europeias nas paredes brancas, mal pregadas e tortas, que nos alcançam sem ter o que dizer. Alpes Suíços? Torre Eiffel? Tem gente brincando com a nossa cara. O cartório faz o que quer com nossos rostos deprimentes.

Sinto uma vertigem pela manhã desperdiçada e nisso noto um atendente sorrindo desgraçadamente do outro lado da sala. Em sua mesa repleta de coisas ele se dirige a uma senhora, concentrado. Foi a ele que um dos três homens se voltou, sem a menor cerimônia, furando a vez da velha e roubando a atenção de todos. Obrigatoriamente, recobrei o ar depois de ter ficado meio verde.

(cara qualquer) Amigão, ele é doutor em Brasília, apontou para o médico, ele tem plantão hoje à tarde, onde está a moça que atende na mesa ao lado da sua? chama ela.

A senhora que teve o atendimento interrompido ficou ora, ora, por dentro. Ela estava acompanhada por um homem mais jovem, talvez filho, e já haviam passado pelos trâmites de pega senha, senta; painel eletrônico, senta; um ou dois atendentes, senta; atendente específico, O que eu posso fazer para ajudar?, senta.

(atendente, olhos na tela do computador) Ela está no lanche.

(cara qualquer) Chama ela… zzz

Fui reparando no atendente, blusa florida, sem se desviar do trabalho, fala calma, Vou mandar mensagem.

(cara qualquer) Sabe o que é, amigão, coisa simples, só que o doutor aqui tem que viajar, mas é coisa rápida.

O cara é vendedor de carros e faz o doutor ficar de pé que nem uma porta e sem língua para dizer palavras. Vi sua cabeça diminuir de tamanho.

(atendente, que podia ser meu amigo) O senhor tem de esperar.

(cara imbecil) Você sabe em quanto tempo ela volta?, é que o doutor tem plantão à tarde e se ele perder o plantão, vidas serão perdidas.

(eu namoraria sem problemas o atendente esquisitão) O senhor tem de esperar ali, apontou. Foi a única vez que olhou para ele.

Com uma atitude invocada o terceiro cara se senta frente à mesa da mulher ausente, como se a intimidasse à distância.

A mulher não apareceu. Terminaria o seu lanche primeiro, imaginei satisfeita. Andado o tempo, o vendedor, aceitando que perdeu, se despediu do médico que continuaria ali no cartório. Todavia, antes de sair, um brilho nefasto perpassou o rosto do vendedor uma última vez e ele não resistiu.

(de novo, alto, para o médico) Fala que tem pessoas aflitas que dependem de você.

Eu entrava na conversa deles baixinho sem que ninguém notasse, Mas não estamos todos? A-fli-tos!

Juro que senti alguém bufando. Era a senhorinha perdendo o controle que trazia no peito dolorido de viver.

Grande coisa ser médico (disse ela definitiva) Eu sou professora!

Vislumbrei um meio sorriso na boca dela. Era? Não era? Eu mais de pertinho.

Bati palmas literalmente e nervosamente e não parei. A senhorinha era eu transformada em alguém, porque eu era breve e depois dessa vou me colocar maior.

Silêncio na geral. Ninguém ousou se mexer por uma fração de tempo. Tic tac! As vozes foram se indo num silêncio pesado. Eu não esperava a vaziez que se instalou na imponente sala.

Eu sou arquiteto, disse o suposto filho, abraçando a suposta mãe.

Espaço cheio outra vez.

Eu sou dono de farmácia.

Eu, bailarina.

Coragem.

Motorista de ônibus por 33 anos.

Biólogo!

O rapaz chato ficou vermelho.

Cadeirante e jornalista, não está vendo?

União!

Parecia um filme do Kafka. Quer dizer, um livro. Kafka era escritor ou ator mesmo!?

Um fio de algodão ligou cada um de nós.

Cena inesquecível: vendedor sem graça, médico pedindo ao sobrenatural para adquirir o poder de ficar invisível, terceiro homem fugindo para o banheiro cabisbaixo.

Em instantes chamaram meu número e eu me desprendi do momento magnífico. Na fila de “Assinaturas” um garoto de aparência frágil acompanhava um homem que parecia doente. Ao me aproximar deles, o garoto me disse, e eu sou um anjo.

Por pouco não desmaiei. Com o documento balançando em minhas mãos em um movimento descoordenado me apresentei apressada a moça da janela, e apregoei:

_ Não basta eu assinar, o cartório tem que dizer que a assinatura é minha. Com isso algumas poucas famílias donas desse negócio tão lucrativo vão ficando cada vez mais ricas neste que é um país consumido pela desconfiança. Quanto é!? Tudo isso? Isso é um verdadeiro absurdo!!!

Soube mais tarde que a mulher que lanchava teve uma dor de barriga terrível e foi para casa tirar o dia de folga.

Quando o sol se pôs me voltei para a palavra tartaruga. Essa palavra é tudo pra mim! Acrescentei: Que a vida seja como um banho de mar. Tartaruga - banho - mar. Poesias devem nascer assim.


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